“Sou feito da inteira evolução da Terra; sou um microcosmo do macrocosmo. Nada há no universo que não esteja em mim. O inteiro universo está encapsulado em mim, como uma árvore numa semente. Nada há ali fora no universo que não esteja aqui, em mim. Terra, ar, fogo, água, tempo, espaço, luz, história, evolução e consciência – tudo está em mim. No primeiro instante do Big Bang eu estava lá, por isso trago em mim a inteira evolução da Terra. Também trago em mim os biliões de anos de evolução por vir. Sou o passado e o futuro. A nossa identidade não pode ser definida tão estreitamente como ao afirmar que sou inglês, indiano, cristão, muçulmano, hindu, budista, médico ou advogado. Estas identidades rajásicas são secundárias, de conveniência. A nossa identidade verdadeira ou sáttvica é cósmica, universal. Quando me torno consciente desta identidade primordial, sáttvica, posso ver então o meu verdadeiro lugar no universo e cada uma das minhas acções torna-se uma acção sáttvica, uma acção espiritual”

- Satish Kumar, Spiritual Compass, The Three Qualities of Life, Foxhole, Green Books, 2007, p.77.

“Um ser humano é parte do todo por nós chamado “universo”, uma parte limitada no tempo e no espaço. Nós experimentamo-nos, aos nossos pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto – uma espécie de ilusão de óptica da nossa consciência. Esta ilusão é uma espécie de prisão para nós, restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e ao afecto por algumas pessoas que nos são mais próximas. A nossa tarefa deve ser a de nos libertarmos desta prisão ampliando o nosso círculo de compreensão e de compaixão de modo a que abranja todas as criaturas vivas e o todo da Natureza na sua beleza”

- Einstein

“Na verdade, não estou seguro de que existo. Sou todos os escritores que li, todas as pessoas que encontrei, todas as mulheres que amei, todas as cidades que visitei”

- Jorge Luis Borges

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

"(...) o universo é um processo criativo autoconsciente"

“Olhando mais fundo do que a dualidade de um Deus que criou o universo, mais fundo do que a dualidade de um nirvana para o qual possamos escapar de um samsara terreno, e mais fundo do que a dualidade do materialismo científico, reconhecemos que o universo é um processo criativo autoconsciente. Esta pura potencialidade criadora está também em nós. Ela pode despertar e libertar-se das limitadoras identidades e jogos da condição humana”

- John Stanley / David Loy, “At the edge of the roof: the evolutionary crisis of the human spirit”, in Spiritual Ecology. The Cry of the Earth, Point Reyes, The Golden Sufi Center, 2013, pp.45-46.

domingo, 29 de dezembro de 2013

A ilusão do eu separado na raiz de todos os aspectos da crise


“A crise que ameaça o nosso planeta, quer seja vista nos seus aspectos militares e ecológicos ou sociais, deriva de uma noção do eu disfuncional e patológica. Deriva de um erro acerca do nosso lugar na ordem das coisas. É a ilusão de o eu ser tão separado e frágil que tenhamos de delinear e defender as suas fronteiras; de ser tão pequeno e tão necessitado que tenhamos de infinitamente adquirir e consumir; e que, enquanto indivíduos, corporações, estados-nações ou espécie, possamos ser imunes ao que fazemos aos outros seres”

- Joanna Macy, “The Greening of the Self”, in AAVV, Spiritual Ecology. The Cry of the Earth, Point Reyes, The Golden Sufi Center, 2013, pp.149-150.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Os princípios de uma nova civilização


“Um reconhecimento de uma aliança está a crescer entre pessoas em diferentes arenas de activismo, seja político, social ou espiritual. O acupunctor holístico e o resgatador de tartarugas do mar podem não ser capazes de explicar o sentimento, “Estamos a servir a mesma coisa”, mas estão a fazê-lo. Ambos estão ao serviço de uma emergente História das Pessoas que é a mitologia definidora de um novo tipo de civilização.

Chamar-lhe-ei a História do Entre-Ser, a Idade da Reunião, a era ecológica, o mundo da dádiva. Ela oferece um conjunto completamente diferente de respostas às questões que definem a vida. Eis aqui alguns dos princípios da nova história:

- Que o meu ser participa no teu ser e no de todos os seres. Isto vai para além da interdependência – a nossa própria existência é relacional.
- Que, portanto, o que fazemos ao outro, fazemo-lo a nós mesmos.
- Que cada um de nós possui um único e necessário dom a oferecer ao mundo.
- Que a finalidade da vida é expressar os nossos dons.
- Que todo o acto é significativo e tem um efeito no cosmos.
- Que estamos fundamentalmente inseparados uns dos outros, de todos os seres e do universo.
- Que cada pessoa que encontramos e cada experiência que temos espelha algo em nós mesmos.
- Que a humanidade está destinada a unir-se alegremente à tribo de toda a vida na Terra, oferecendo os nossos dons unicamente humanos para o bem-estar e o desenvolvimento do todo.
- Que finalidade, consciência e inteligência são propriedades inatas da matéria e do universo”

- Charles Einsenstein, The More Beautiful World Our Hearts Know is Possible, Berkeley, North Atlantic Books, 2013, pp.15-16.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

“A um nível pessoal, a mais profunda revolução possível que podemos decretar é uma revolução no nosso sentimento de eu, na nossa identidade"


“A um nível pessoal, a mais profunda revolução possível que podemos decretar é uma revolução no nosso sentimento de eu, na nossa identidade. O eu autónomo e separado de Descartes e Adam Smith chegou ao fim e está a tornar-se obsoleto. Estamos a reconhecer a nossa própria inseparabilidade, uns dos outros e da totalidade da vida. A usura desmente esta união, pois busca o crescimento do eu separado às custas de algo externo, algo de outro. Provavelmente todos os que lêem este livro concordam com os princípios da interconexão, seja de uma perspectiva espiritual ou ecológica. Chegou o tempo de a vivermos. É a hora de entrar no espírito do dom, que incarna a compreensão sentida da não-separação. Está a tornar-se abundantemente óbvio que menos para ti (em todas as suas dimensões) é também menos para mim. A ideologia do ganho perpétuo levou-nos a um estado de pobreza tão indigente que estamos ofegantes por ar. Essa ideologia, e a civilização construída sobre ela, é o que hoje está a entrar em colapso”

- Charles Eisenstein, Sacred Economics. Money, Gift & Society in the Age of Transition, Berkeley, Evolver Editions, 2011, p.139.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

As razões pelas quais com o actual sistema económico jamais haverá paz para os humanos, os animais e o planeta


“Por causa do lucro, em qualquer dado momento, a quantidade de dinheiro devido é maior do que a quantidade de dinheiro já existente. Para fazer novo dinheiro a fim de manter o inteiro sistema a funcionar, […] temos de criar mais “bens e serviços”. O principal modo de o fazer é começar a vender algo que outrora era gratuito. É começar a converter florestas em madeira, música em produto, ideias em propriedade intelectual, reciprocidade social em serviços pagos.

Estimulada pela tecnologia, a mercantilização de bens e serviços inicialmente não-monetários acelerou ao longo dos últimos séculos, ao ponto de hoje muito pouco ser deixado fora da esfera monetária. As vastas provisões, de terra ou de cultura, foram isoladas e vendidas – tudo para acompanhar o ritmo do crescimento exponencial do dinheiro.

[...]

O imperativo do crescimento perpétuo implícito no dinheiro baseado no lucro é o que impele a implacável conversão da vida, do mundo e do espírito em dinheiro. Completando o círculo vicioso, quanto mais convertemos vida em dinheiro, mais dinheiro necessitamos para viver. A usura, e não o dinheiro, é a raiz proverbial de todo o mal.

[...]

Devido à dívida nutrida pelo lucro acompanhar toda a nova emissão de dinheiro, em qualquer momento dado a quantidade da dívida excede a quantidade de dinheiro existente. A insuficiência do dinheiro impele-nos à competição uns com os outros e remete-nos para um construído e constante estado de escassez. É como o jogo das cadeiras, em que nunca há espaço suficiente para que todos estejam seguros. A pressão da dívida é endémica ao sistema. Enquanto alguns podem pagar as suas dívidas, o sistema global requer um geral e crescente estado de endividamento.

A constante e subjacente pressão da dívida significa que haverá sempre pessoas inseguras ou desesperadas – pessoas sob pressão para sobreviver, prontas a abater a última floresta, apanhar o último peixe, vender a alguém sapatilhas, liquidar seja qual for o capital social, natural, cultural ou espiritual ainda disponível. Nunca poderá haver um tempo em que atinjamos o “suficiente” porque, num sistema de dívida baseado no lucro, o crédito não apenas troca “bens presentes por bens no futuro”, mas bens presentes por mais bens no futuro. Para servir a dívida ou apenas para viver, ou tiramos a riqueza existente de uma outra pessoa (daí, a competição) ou criamos “nova” riqueza extraindo-a das provisões comuns”

- Charles Einsenstein, Sacred Economics, Berkeley, Evolver Editions, 2011, pp.100-103.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal


És deveras tu a mais excelsa Árvore
que de glória e espanto nimbada
no íntimo de cada lar
ergues e iluminas

Tu que, sagrado e primordial,
de ti despido
desde sempre e para sempre
Céu e Terra abraças

Em ti o ouro e a prata eternos brilham
as velas se acendem
fulvas as estrelas cintilam

Em ti circula a seiva das coisas
o Dom
a anónima Alegria que perpassa
abrindo a mão que dá e a que recebe
no fulgor da mais pura graça

Em ti se acende a Luz
que súbita a noite ilumina
e tão mais brilha
quão menos se apercebe

És tu que na gruta do Coração
no presépio de cada instante eterno nasces
entre o bafo e a adoração do mundo
e os coros celestiais

Tu que trazes o universo no coração
e com ele infante a sorrir brincas
suspenso, irradiante e puro
a dançar na palma da mão

Pois em ti
nu, inocente e mudo
o tempo ainda não é
e já finda

Em ti
adamantino tudo a florir ressuscita
da ilusão de haver distância

És esplendor, prodígio e maravilha
Promessa, Anúncio e Presença

Festa

Todo o Mundo e Ninguém

Natal


24.12.2008 – 24. 12.2013

domingo, 22 de dezembro de 2013

Feliz Natal para todos os seres!


Natal. Sob pretexto da comemoração do nascimento de um mensageiro da consciência, da paz e do amor, a maioria dos humanos prepara-se para sacrificar alegremente milhões de animais que como nós amam a vida como o mais precioso bem, enquanto já se precipita no frenesim do consumo lançando para um planeta à beira do colapso mais toneladas de lixo que vai levar centenas e milhares de anos a reabsorver e é cúmplice da exploração do trabalho escravo nos países do Sul e do Este. São estas as prendas e o exemplo que deixamos para as gerações futuras. Os grandes grupos económicos agradecem. E tudo para na ressaca do grande festim ficarmos tão tristes, insatisfeitos e vazios como sempre.

É verdade que se vive o Solstício de Inverno, a morte e o renascimento da Vida, que desde sempre foi celebrado com grandes festas, troca de presentes e rituais de inversão dos valores. O Natal de hoje foi um Carnaval na antiguidade, de onde vieram as Festas dos Loucos medievais que ainda se celebravam nas igrejas até serem proibidas pela hierarquia eclesiástica que nelas se via fortemente contestada. É verdade que no Natal se recupera o sentimento de festa, comunidade, generosidade e dom de que a modernidade nos privou, com o novo obscurantismo do progresso pelo trabalho, pelo individualismo, pela ganância e pela eficiência competitiva. É verdade que no Natal os corações se abrem e recordamos que os outros existem. E isso é belo e bom. Mas a festa, a comunhão e a abundância não implicam sacrificar outros seres nem atolar-nos com mais coisas de que não precisamos de todo. A verdadeira festa, comunhão e abundância são as do Coração aberto, fraterno e desperto, que a cada instante abraça tudo e todos. Então todos os dias é Natal, ou seja, Nascimento em nós da eterna Criança amorosa que nos habituámos a esquecer, mas que no fundo sempre somos.

Neste Natal não ponhas vidas mortas na tua mesa. A Vida é só uma e todos os seres são de ti inseparáveis. Neste Natal dá-te à Luz e renasce irradiante do túmulo da vida mesquinha.

Feliz Natal!

sábado, 21 de dezembro de 2013

“A comunidade do futuro emergirá das necessidades que o dinheiro por inerência não pode satisfazer”



- Charles Eisenstein, Sacred Economics, 2011, p.79.

"Temos vivido numa Idade de Separação"


“Temos vivido numa Idade de Separação. Um a um, dissolveram-se os nossos laços com a comunidade, a natureza e o lugar, abandonando-nos num mundo estranho. A perda destes laços é mais do que uma redução da nossa riqueza, é uma redução do nosso próprio ser. O empobrecimento que sentimos, isolados da comunidade e da natureza, é um empobrecimento das nossas almas. Isto porque, contrariamente ao que assume a economia, a biologia, a filosofia política, a psicologia e a religião institucional, nós não somos na essência seres separados que têm relações. Nós somos relação”

- Charles Eisenstein, Sacred Economics. Money, Gift & Society in the Age of Transition, Berkeley, Evolver Editions, 2011, p.49.

Não tenhas os pensamentos por teus

Não tenhas os pensamentos por teus
Contempla-os como nuvens irreais
Assim contemplarás, imortal,
a tua própria morte

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Canto as coisas selvagens

Canto as coisas selvagens,
as rosas vivas a romper os túmulos,
os beijos agrestes sobre as falésias,
os pôr-de-sois em sangue a incendiar o mundo
Canto o teu coração livre a voar na ponta da mais branca asa

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

“Como nos negócios, as instituições políticas e religiosas precisam retornar às suas raízes espirituais, tal como os movimentos de justiça ambiental e social"


“Como nos negócios, as instituições políticas e religiosas precisam retornar às suas raízes espirituais, tal como os movimentos de justiça ambiental e social (…). Neste momento a maioria dos movimentos de mudança social concentram-se em campanhas negativas. Apresentam cenários de tristeza e melancolia e tornam-se espelhos das instituições que criticam (...) O amor da natureza e o valor intrínseco de toda a vida, humana e não humana, é a base essencial em que os movimentos de justiça ambiental e social precisam ser enraizados. A base de todo o movimento é a reverência pela vida, e esta é uma base espiritual. Não há contradição entre a campanha política pragmática e uma visão espiritual. O programa político de Mahatma Gandhi foi fundado em valores espirituais. O Movimento dos Direitos Civis de Martin Luther King estava enraizado numa visão espiritual. Os movimentos de justiça ambiental e social contemporâneos também exigem um visão do mundo ampla, em vez de se limitarem à ciência ecológica e às ciências sociais”

- Satish Kumar, Elegant simplicity is the way to discover spirituality.

"Em resumo: vazio interior – consumismo – fosso ecológico – fosso social”


“Os três fossos [espiritual-cultural, ecológico e sócio-económico] que compõem a superfície de sintomas [da crise] estão extremamente entrelaçados. Por exemplo, a perda de sentido na vida e no trabalho (o vazio interior) é frequentemente preenchido com mais consumo material (consumismo), o qual aprofunda o fosso ecológico por um maior esgotamento de recursos. A intensificação do fluxo da corrente de recursos naturais dos países em vias de desenvolvimento para os países desenvolvidos, e o fluxo das correntes de desperdício em sentido oposto, conduz por sua vez a um aprofundamento do fosso social. Em resumo: vazio interior – consumismo – fosso ecológico – fosso social”

- Otto Scharmer / Katrin Kaufer, Leading from the Emerging Future. From ego-system to eco-system economies, São Francisco, Berret-Koehler Publishers, 2013, p.40.

O coração é desde sempre livre dos falsos limites da pele e do pensamento


Não estamos limitados pela pele nem pelo pensamento. Somos tudo e todos. Mas só reconhecemos ser o que amamos. Amemos pois tudo e todos. Mesmo aqueles que não amam. Pois se os não amarmos seremos o seu desamor e se os amarmos eles em nós amarão. Somos tudo e todos. O coração é desde sempre livre dos falsos limites da pele e do pensamento.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Oito pontos para um encontro e um diálogo inter-religiosos mais plenos


O mundo chegou a um ponto de mutação e exige um novo paradigma em todas as áreas do pensamento e da acção, que constitui um enorme desafio para as consciências e líderes espirituais e religiosos do nosso tempo. Eis o que me parecem ser os pontos fundamentais desse desafio:

1 – Compreender e experimentar que o divino, o absoluto ou realidade última assumido por cada tradição e comunidade religiosa transcende igualmente a todas, como o seu fundo comum, não sendo posse exclusiva ou privilegiada de nenhuma delas.

2 – Compreender e experimentar que esse mesmo divino, absoluto ou realidade última transcende inequivocamente todas as formas de representação (imagens, palavras, conceitos, acções) e portanto todas as doutrinas teológico-filosóficas e práticas litúrgicas que o visem, não podendo reduzir-se a qualquer dogma ou ritual, sob risco de se cair na idolatria, trocando-o pelo endeusamento daquilo que a seu respeito o ser humano imagina, concebe, diz e faz.

3 – Compreender e experimentar que daí decorre haver muitas vias e experiências que podem disponibilizar os seres humanos para acederem a esse divino, absoluto ou realidade última, não apenas as religiosas ou mesmo espirituais, mas também outras, incluindo as de quem se veja como ateu ou agnóstico.

4 – Compreender a partir daí a centralidade e urgência do encontro e do diálogo interculturais e inter-religiosos, mas abertos a um encontro e diálogo mais amplos com agnósticos e ateus. Compreender que todos podem aprender com todos e que em cada via religiosa tanto mais se progredirá no caminho para o divino, absoluto ou realidade última quanto mais o viajante se abrir à compreensão e ao respeito de outras vias, caminhos e modos de caminhar, religiosos ou não, para o mesmo destino. Compreender também que toda a forma de encontro e de diálogo intercultural e inter-religioso se deve fundar em algo de mais profundo e radical, o silêncio transcultural e trans-religioso, do qual pode surgir a escuta atenta do outro - não como estranho ou alheio, mas como irmão - e a palavra meditada e verdadeira. Compreender que o mais importante da religião é a espiritualidade, transversal a crentes e não-crentes, e que a espiritualidade – ou seja, a expansão fraterna da consciência - reside no âmago de toda a experiência humana, não só naquelas rotuladas como “religiosas” ou “espirituais”.

5 – Compreender e experimentar que o divino, o absoluto ou a realidade última se manifesta igualmente, embora de diverso e singular modo, em todos os seres e coisas, estando integralmente presente em tudo quanto existe. Compreender que a esta luz todos os seres e fenómenos são sagrados, sendo preciosas epifanias da natureza primordial de tudo, e que todas as hierarquias tradicionalmente concebidas entre os seres são sempre relativas a pressupostos, perspectivas e critérios humanos e não inerentes ao mundo visto a partir desse divino, absoluto ou realidade última, como acontece nas mais profundas experiências espirituais. Compreender que todos os seres estão interligados no seio do divino, absoluto ou realidade última, que todos são próximos, íntimos e inseparáveis e que todos possuem um valor intrínseco e não instrumental. Compreender e experimentar que tudo quanto existe é a própria expressão gloriosa do divino, absoluto ou realidade última, que o unimultiverso é sagrado e que o desencantamento do mundo nunca se deu, sendo apenas o desencantamento da mente que transitoriamente perdeu a capacidade de percepcionar e sentir a abissal e íntima profundidade de tudo.

6 – Compreender que a partir daí não há nenhuma via para o divino, absoluto ou realidade última que não exija uma ética global, de respeito, reverência e cuidado integrais por todas as formas de vida, humanas e não-humanas, bem como pelos ecossistemas e pela natureza dos quais todas essas vidas dependem e que são igualmente manifestações plenas e exuberantes desse divino, absoluto ou realidade última.

7 – Compreender que toda a via para o divino, absoluto ou realidade última é incompatível com a cumplicidade, alheamento, indiferença ou desconsideração a respeito da discriminação, opressão e exploração a que sejam sujeitos quaisquer seres, enquanto manifestações e ícones vivos desse divino, absoluto ou realidade última. Compreender e praticar a necessidade de que a espiritualidade e a religião se exerçam na denúncia e no combate não-violento contra todas as formas dessa discriminação, opressão e exploração: religiosa, cultural, étnica, sexual, especista, social, económica e política. As comunidades espirituais e religiosas devem unir a sabedoria, o amor e a compaixão, a contemplação e a acção, promovendo novas formas de intervenção no mundo, fundadas na descoberta da paz interior, da calma e da clareza mentais e espirituais mediante as práticas contemplativas e meditativas. Os líderes e as comunidades espirituais e religiosas devem convergir e unir-se para este fim, criando também plataformas de reflexão e acção convergentes com grupos e movimentos laicos da sociedade civil no sentido da transformação urgente que o novo ciclo cultural e civilizacional de todos pede.

8 – Compreender que as consciências e os líderes espirituais e religiosos devem ser sempre os primeiros exemplos da mudança que querem ver no mundo, mantendo um espírito aberto, fraterno, altruísta e desinteressado, sem apego à riqueza material, ao poder, à fama e ao prazer. Compreender que o verdadeiro líder é aquele que se apaga no divino, absoluto ou realidade última e convida todos a fazerem o mesmo, descobrindo que a verdadeira liderança é em todos a do espírito divino ou a da consciência desperta.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A maior perda: a do imperdível

O unimultiverso é o corpo vivo de “Deus” ou da Realidade última e cada ser e fenómeno são um ícone vivo, portentoso e único do todo e do infinito, que se manifesta como pedras-plantas-animais-humanos-deuses. Cada coisa é todas as outras e mais sagrada do que todos os deuses, sábios e santos em todos os templos e altares. Experimentar isto é experimentar que se é isto. Não experimentar nem sequer compreender isto é a maior perda: a do imperdível.

O mito da separação entre nós e os outros é mortal


“Enquanto o fosso ecológico se baseia numa separação entre o eu e a natureza e o fosso social numa separação entre o eu e o outro, o fosso espiritual-cultural reflecte uma separação entre o eu e o Si – isto é, entre o nosso actual “eu” e o futuro “Si” emergente que representa o nosso maior potencial. Este fosso é manifesto em valores rapidamente crescentes de esgotamento e depressão, que representam o crescente abismo entre as nossas acções e quem nós realmente somos. De acordo com a World Health Organization (WHO), em 2000 morreram por suicídio mais do que o dobro das pessoas que morreram em guerras”

- Otto Scharmer / Katrin Kaufer, Leading from the Emerging Future. From ego-system to eco-system economies, São Francisco, Berret-Koehler Publishers, 2013, p.5.

Agostinho da Silva - Um pensamento vivo

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

"Precisamos de uma espécie de despertar colectivo"


“Precisamos de uma espécie de despertar colectivo. Há entre nós homens e mulheres que estão despertos, mas não é suficiente; a maioria das pessoas ainda estão a dormir. Construímos um sistema que não podemos controlar. Ele impõe-se a nós e tornamo-nos os seus escravos e vítimas. Para a maioria de nós que querem ter uma casa, um carro, um frigorífico, uma televisão e assim por diante, temos de sacrificar o nosso tempo e as nossas vidas em troca. […] Criámos uma sociedade na qual os ricos se tornam mais ricos e os pobres mais pobres e na qual estamos tão apanhados nos nossos problemas imediatos que não nos podemos conceder estar conscientes do que é que se passa com o resto da família humana ou com o nosso planeta Terra. No meu espírito vejo um bando de galinhas numa gaiola lutando por umas poucas sementes de cereal, inconscientes de que dentro de poucas horas serão todas mortas”

- Thich Nhat Hanh, The Bells of Mindfulness, in Spiritual Ecology. The Cry of the Earth, 2013, p.26.

"(...) ler as cartas de amor mandadas pelo vento e pela chuva, pela neve e pela lua"


"Todos os dias, sacerdotes examinam minuciosamente a Lei e cantam infinitamente sutras complicados. Contudo, antes de fazerem isso, deveriam aprender como ler as cartas de amor mandadas pelo vento e pela chuva, pela neve e pela lua"

- Ikkyu

Tempo de Antena PAN 2013

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Despertemos e veremos que não há solução, porque não há problema

Todos os problemas e sofrimentos com que a humanidade milenarmente se confronta, e que a tornam a mais terrível predadora de si mesma, dos seres vivos e do planeta, assentam num equívoco fundamental: o de julgarmos existir separados dos outros e do mundo, o de haver uma brecha entre nós e a realidade, o de trazermos um vazio e uma carência na alma. É por isso que passamos o tempo das nossas vidas a tentar dramática e angustiadamente preencher esse vazio e suprimir essa carência com todo o tipo de coisas: poder, riqueza, prazer, fama, sexo, distracções, tecnologia, ciência, religião, arte, literatura, cultura, espiritualidade, filosofia, moral, política, etc. Mas tudo isso, se for procurado com esta atitude, só gera mais ilusões e dependências que nos deixam sempre mais frustrados, pois nada disso resulta. E nada disso resulta porque jamais houve realmente qualquer separação, brecha, vazio ou carência. Nunca deixámos de ser plenos, vastos e infinitos como o universo. Apenas deixámos de o experimentar, neste sonho da consciência a dormir embalada nas crenças socialmente dominantes. Despertemos pois e veremos que não há solução, porque não há problema.

Mas antes, durante e depois do despertar não esqueçamos quem dorme e os pesadelos por que passa: fome, sede, violência praticada e sofrida, pobreza e apego à riqueza, tortura física, emocional e mental. Sejamos despertos e solidários, sábios-compassivos, em relação a todos os seres. Acudamos a pôr fim a todo o sofrimento, por todas as vias possíveis, mas saibamos que o melhor que podemos oferecer a alguém é o estímulo-convite ao despertar da consciência para a plenitude que desde sempre e para sempre nos habita.

Ética e ecologia


“[…] tanto a ética como a ecologia pressupõem um habitar, no primeiro caso, humano, no segundo inerente a todos os seres vivos, que se dá num solo comum - a natureza e o mundo – e que se constitui mediante a relação mútua entre aqueles que habitam, mediada pela instância onde habitam. A questão está em saber se a semelhança deverá ou não ser levada até à identidade, ou seja, se a ética se deverá reduzir à ecologia e o homem ao estatuto de um qualquer outro ser natural, como pretende a “ecologia profunda”, ou se este, de algum modo, transcende a economia do todo, reclamando, para si, um estatuto à parte.

Mais uma vez, é a categoria de responsabilidade que permite resolver este dilema acerca do tópos humano, dado que apenas enquanto responsável pode o homem habitar na natureza e cohabitar com os outros seres vivos, ao mesmo tempo que a transcende, de modo a decidir sobre a melhor forma de preservar harmoniosamente essa cohabitação”

- Cristina Beckert, Ética, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2012, pp.153-154.

Liberdade política sem liberdade económica?


"A liberdade política é perfeitamente ilusória enquanto não se tem liberdade económica, pela coacção exercida por quem dispõe dos meios de produção, de transporte e de crédito"

- Agostinho da Silva.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Mãe, Irmã e Amante Nossa (uma versão feminina - feminista? - do Pai Nosso)



Mãe, Irmã e Amante nossa, que estais em toda a parte,
Sagrada, amada e fecunda seja a vossa matriz,
Venha a nós o vosso êxtase,
Seja nossa a vossa liberdade
Assim na Terra como no Céu.
O maravilhado espanto de vossa desmesura nos dai hoje e sempre.
Libertai-nos da ilusão de existirmos
Assim como nós nos libertamos de serdes outra
E não nos deixeis cair em dualidade,
Mas livrai-nos do bem e do mal.
Ámen.

"...português, na sua plena forma brasileira"


"(…) Claro que sou cristão, e outras coisas, por exemplo budista, o que é, para tantos, ser ateísta; ou, outro exemplo, pagão. O que, tudo junto, dá português, na sua plena forma brasileira. (…)"

- Agostinho da Silva

"O que conta na vida não é o facto de termos vivido. É a diferença que fizemos para a vida dos outros" - Nelson Mandela

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Uma economia que destrói tudo


"(…) É uma economia do trabalho, da produção, (…) que toma conta da terra, das plantas, dos animais, dos homens, de tudo"

- Agostinho da Silva, Vida Conversável.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Independência, dependência ou interdependência de Portugal? Sobre o 1º de Dezembro



Tudo mudou. Comemora-se hoje o 1º de Dezembro, que passou a ser o dia da Dependência de Portugal. E é um não feriado, pois estamos também todos cada vez mais dependentes do trabalho escravo para os novos senhores do mundo. Sim, Portugal não é independente. Está colonizado. Pela Troika e pelos grandes blocos económico-financeiros mundiais, que desde há muito movem os cordelinhos das marionetas chamados governos portugueses.

Estamos colonizados como outrora fomos colonizadores. Na verdade só colhemos o que semeamos. Na Índia chamam “karma”, que nada tem a ver com destino, mas sim com “acção” criadora(a palavra tem a mesma raiz de “criar”) e seus resultados. Há 500 anos colonizámos,explorámos e escravizámos. Até 1974. Hoje somos colonizados, explorados e escravizados. E temos a sorte de ainda assim serem muito mais brandos connosco do que fomos com os indígenas de todas as latitudes.

Por outro lado, nunca fomos independentes, mas apenas menos dependentes. Nenhum humano, povo ou nação alguma vez foi independente. Todos fomos, somos e seremos interdependentes. Portugal foi sempre interdependente das múltiplas relações culturais,políticas e comerciais que manteve desde a fundação. E a partir da expansão marítima tornou-se cada vez mais dependente da cobiça que o fez abandonar o cuidado da terra natal para viver sucessivamente à custa do comércio do Oriente, das minas e dos escravos de África, do ouro do Brasil e, finalmente,dos subsídios europeus. Que enriqueceram uns poucos e lançaram na pobreza a maioria.

Agora estamos como estamos. Até que mudemos o “karma”, ou seja, até que mudemos a nossa atitude perante a vida e o mundo e o nosso agir. Sofridas as consequências dos erros que cometemos, há que não os repetir. Se durante cinco séculos causámos o sofrimento de tantos povos, matando, escravizando e explorando, façamos hoje o contrário. Ocupemos a primeira linha da solidariedade activa com todos os seres humanos de todos os povos, com todos os seres vivos e com o planeta. Ocupemos a vanguarda da defesa dos direitos humanos, dos animais e da Terra. Estejamos na frente da busca de alternativas a esta civilização violenta por cuja globalização fomos os primeiros responsáveis. E ocupemo-nos por fim do nosso rectângulo.Façamos deste país uma terra de cultura ética e universalista, desenvolvimento interior, justiça social, resiliência, sustentabilidade económica e consciência ecológica, regressemos aos nossos campos e mares, desenvolvamos as energias renováveis e estabeleçamos uma democracia participativa que nos liberte de uma classe política corrupta. Estejamos preparados para a falência do Euro ou da própria União Europeia e saibamos viver melhor com menos. Sejamos menos dependentes,sem a ficção de sermos independentes. Vivamos uma feliz interdependência com todos os povos, culturas e nações e prezemos a relação, não só e não necessariamente com os que falarem a mesma língua, mas com aqueles que forem mais sábios, éticos e justos. Sejamos cidadãos de todo o mundo, com os pés bem implantados nesta terra e o espírito-coração abertos a todo o universo.

A única missão de Portugal, de todas as nações e de todos os humanos é Despertar a consciência eo coração para o bem comum de todos os seres vivos. É a isso que Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva chamaram “Quinto Império”, que não é outro império senão oda consciência desperta e do bom coração. Como escreve Fernando Pessoa no final da “Mensagem”:

É a Hora!

Valete, Fratres (Saúde,Irmãos)!

Paulo Borges

1 de Dezembro de 2013

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

"Será que aquilo que nos traz impressões desagradáveis não pertence tanto ao plano da natureza quanto o que há de mais amável nela?"

"Será que aquilo que nos traz impressões desagradáveis não pertence tanto ao plano da natureza quanto o que há de mais amável nela?

Será que as tempestades furiosas, as inundações, as chuvas de fogo, as lavas subterrâneas e a morte em todos os elementos não são testemunhas tão verdadeiras da vida eterna da natureza como o sol erguendo-se magnificamente sobre as vinhas opulentas e os bosques odoríferos de laranjeiras?

O que vemos da natureza é força que devora a força: nada permanece presente, tudo passa, mil germes esmagados, a cada instante mil germes nascidos, (...) belo e feio, bom e mau, tudo existindo um ao lado do outro com o mesmo direito"

- Goethe

Não sentes nada de estranho, lá bem no fundo de ti mesmo?

Não sentes nada de estranho, lá bem no fundo de ti mesmo? Mesmo quando tudo parece normal à tua volta? Não, não é no corpo, nem nas emoções, nem nos pensamentos, por mais estranhos que por vezes sejam. É mais fundo, mais fundo. É antes de tudo o que estás habituado a pensar e sentir. Sim, é por aí... É aí mesmo. É isso, é isso. EXISTES!!! ESTÁS VIVO!!! E tens um mundo imenso diante e dentro de ti, com tanta coisa em aberto, com tanta coisa… Não é tão estranho!? E mais estranho ainda quase nunca darmos por isso, não é!? Mas, já agora que deste por isso, já agora que despertaste, aproveita e não adormeças de novo. Eu juro que estou a tentar fazer o mesmo. Estamos juntos. Até já!

"Todas as espécies, povos e culturas têm um valor intrínseco"


Princípios da Democracia da Terra

1. Todas as espécies, povos e culturas têm um valor intrínseco: todos os seres são sujeitos dotados de integridade, inteligência e identidade e não objectos susceptíveis de converter-se em propriedade de outros, de ser manipulados, de ser explorados ou de ser eliminados. Nenhum ser humano tem direito a ser dono de outras espécies, de outras pessoas ou dos conhecimentos de outras culturas por meio de patentes e outros direitos de propriedade intelectual.

2. A comunidade da Terra é uma democracia de toda a vida no seu conjunto: todos somos membros da família da Terra e estamos interconectados através da frágil rede da vida do planeta. Todos temos o dever de viver de um modo que proteja tanto os processos ecológicos da Terra como os direitos e o bem-estar de todas as espécies e de todas as pessoas. Nenhum ser humano tem direito a imiscuir-se no espaço ecológico de outras espécies e de outras pessoas nem a tratá-las com crueldade e violência.

- Vandana Shiva, Earth Democracy. Justice, Sustainability, and Peace, 2005.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

"Todas as espécies, povos e culturas têm um valor intrínseco"

Princípios da Democracia da Terra

1. Todas as espécies, povos e culturas têm um valor intrínseco: todos os seres são sujeitos dotados de integridade, inteligência e identidade e não objectos susceptíveis de converter-se em propriedade de outros, de ser manipulados, de ser explorados ou de ser eliminados. Nenhum ser humano tem direito a ser dono de outras espécies, de outras pessoas ou dos conhecimentos de outras culturas por meio de patentes e outros direitos de propriedade intelectual.

- Vandana Shiva, Earth Democracy. Justice, Sustainability, and Peace, 2005.

Não acreditas na possibilidade de transformar as pessoas e o mundo!?

Não acreditas na possibilidade de transformar as pessoas e o mundo!? Então constata o que pensavas e fazias há 10, 15, 20 ou 30 e mais anos e o que pensas e fazes agora. Recorda como eras quando nasceste e vê o que és agora. Vê a diferença, deixa de negar aquilo de que és a mais viva prova e deixa de perder tempo com desculpas que não tens para te acomodares e não continuares a mudar. Mas procura mudar sempre para melhor, ou seja, para o que traga cada vez mais consciência e felicidade a ti e a todos os seres.

Porque tememos a morte e não a vida e a existência?

Porque tememos a morte e não a vida e a existência? A vida e a existência são menos estranhas, desconhecidas e imprevisíveis do que a morte? Viver e existir é ser possível acontecer-nos tudo a cada instante, inclusivamente a morte… E isto constantemente. Ao passo que a morte só vem uma vez, no final da vida. A morte é trivial. A vida e a existência são o verdadeiro milagre de cada instante. Para tomar consciência disto basta sermos realistas: nada ter por conhecido, certo e garantido. Então tudo se tornará um mistério maior do que a morte: mesmo o simples estar sentado ao sol ou postar banalidades no Facebook.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Não sou um bombista nem as suas vítimas na Síria


Não sou um bombista nem as suas vítimas na Síria
nem um tibetano a imolar-se por desespero na sua terra ocupada
Não sou um toureiro, um cavalo ou um touro com o lombo trespassado
numa arena de sangue, dor e morte
Também não estou na multidão em êxtase que paga para que isso aconteça
Não sou um especulador financeiro que enriquece com a miséria das populações
nem um ministro ou juiz que decide a favor dos poderosos
Não sou um cão ou gato abandonado por quem se cansou do meu amor
nem estou a tremer de medo e angústia num canil de abate
Não sou um porco, uma vaca ou um frango amontoado num campo de concentração
para oferecer vinte minutos de prazer aos humanos
e intoxicá-los com a minha carne envenenada
Não sou uma mãe separada dos filhos
com as tetas a escorrer pus escrava da ordenha mecânica
para que os humanos bebam o leite que não necessitam e os faz adoecer
Não sou um deputado pago para esquecer quem o elegeu
nem um primeiro-ministro ou presidente a vender o seu país aos senhores do mundo
Não sou um rato torturado e aberto em vida para que a ciência conclua que sofro
nem estou a ser morto à pancada para me retirarem a pele ainda vivo
Não sou um tigre nascido para a selva a definhar triste atrás de umas grades
um elefante espicaçado para mostrar habilidades
ou uma ave com asas de lonjura engaioladas
Não sou pago para veicular mentiras na rádio, tv e jornais
nem sou administrador, director ou accionista de empresas
que lucram com o trabalho escravo de mulheres, homens e crianças
Não sou um médico ao serviço da indústria farmacêutica
nem um profissional da alienação das consciências
Não sou uma mãe a ver os filhos despedaçados por mísseis
ou violados e mortos à sua frente
Não sou o presidente, o ministro ou o general
que no conforto do gabinete ordena o inferno para os outros
Não trabalho para empresas ávidas de lucro que poluem, devastam e destroem o planeta que pertence igualmente a todos os seres vivos
e às gerações futuras de humanos e não-humanos
Não trafico drogas nem ilusões
e não vendo receitas de felicidade com assinaturas espirituais ou religiosas
Não pertenço nem quero pertencer às corporações dos senhores do mundo
ocultos na sombra a mudar governos e manipular povos como marionetas
Não sou um terrorista camuflado nem engravatado,
com armas, ideologias ou planos económico-financeiros
nem um eleitor que confunde a democracia com votar de vez em quando
e não ter controle sobre quem elege
Não sou também um activista que sucumbe ao ódio e ao desespero
e envenena as causas que defende
com a violência que lhe estreita a mente e devora o coração


Não, não sou nada disto
Não sou ninguém especial
Apenas alguém que pode reconhecer a imensa liberdade e oportunidade de que agora mesmo desfruta
para apreciar a vida sem esquecer o sofrimento do mundo
e concentrar-se no essencial enquanto há energia e a morte não chega:
despertar a mente e o coração
e tudo fazer para expulsar a ignorância, o sofrimento e o absurdo da face da Terra

Sim, é isso que sou
Sim, é isso que és
e connosco a grande maioria dos humanos:
sementes de um Mundo Novo

Despertemos, juntemo-nos e germinemos pois!


23 de Fevereiro – 27 de Novembro de 2013

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Quinta-feira, 28, 18.30, lançamento de "É a Hora! A mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa", na Bertrand Picoas Plaza


Convido-vos para o lançamento do meu último livro, que será apresentado pelo romancista e ensaísta Miguel Real. Trata-se de uma interpretação e comentário, poema a poema, da "Mensagem" de Fernando Pessoa, que oferece uma leitura universalista da obra pessoana, destinada a todas as consciências, não só portuguesas e lusófonas, que aspirem a despertar e a integrar uma nova comunidade trans-nacional, trans-cultural e trans-religiosa, criadora de um novo ciclo de civilização, segundo um paradigma holístico e integral, que visa o bem de todos os seres.

A obra é editada pela Temas e Debates / Círculo de Leitores.

"A simpatia estendida para fora dos limites da humanidade, ou seja, a compaixão para com os animais, parece ser uma das últimas aquisições morais"



“À medida que o homem avança na civilização e que as pequenas tribos se reúnem em comunidades mais numerosas, a simples razão indica a cada indivíduo que deve estender os seus instintos sociais e a sua simpatia a todos os membros da mesma nação, se bem que não sejam pessoalmente seus conhecidos.
Atingido este ponto, apenas uma barreira artificial pode impedir as suas simpatias de se estenderem a todos os homens de todas as nações e de todas as raças. A experiência prova-nos, infelizmente, quanto é necessário tempo antes que consideremos como nossos semelhantes os homens que diferem consideravelmente de nós pelo seu aspecto exterior e pelos seus costumes.
A simpatia estendida para fora dos limites da humanidade, ou seja, a compaixão para com os animais, parece ser uma das últimas aquisições morais. […] Esta qualidade, uma das mais nobres de que o homem é dotado, parece provir casualmente do facto de que as nossas simpatias, tornando-se mais delicadas à medida que mais se estendem, acabam por se aplicar a todos os seres vivos. Esta virtude, uma vez honrada e cultivada por alguns homens, expande-se nos jovens pela instrução e pelo exemplo, e acaba por se fazer parte da opinião pública”

- Charles Darwin, A descendência do homem e a selecção sexual.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Oito pontos para um encontro e diálogo inter-religioso mais plenos e para uma cidadania mais esclarecida e activa


O mundo, como expressa o título do livro de Fritjof Capra, chegou a um Ponto de Mutação. A mudança profunda do paradigma globalizado que tem presidido ao nosso pensamento e comportamento, a nível pessoal e institucional, e que é baseado no antropocentrismo, no egocentrismo e na visão dos seres vivos como entidades separadas, já não é hoje somente uma possibilidade que dependa das nossas opções. A mudança está aí como uma necessidade decorrente do esgotamento e da crise desse mesmo paradigma, que a nível mundial mostra resultados cada vez mais contraditórios das aspirações com que foi implementado e da sua sustentabilidade sócio-económica e ecológica a curto prazo.

A mutação que se processa no mundo reclama naturalmente novas consciências espirituais e religiosas e novos líderes que sejam capazes de ler os sinais dos tempos, viver em sintonia com o fluxo criador da vida e inspirar a mudança que urge, sendo exemplos e despertando cada vez mais consciências do sono espiritual, mental e institucional em que tendem a enclausurar-se. Novas consciências e líderes surgem e surgirão, em todos os domínios, com a característica dos novos tempos: sem confundir os planos da acção humana – espiritual, cultural, social, económica, política, etc. - , serem ao mesmo tempo capazes de os integrar numa visão sistémica e global, mais afim à natureza profunda das coisas do que às abstracções separativas da razão conceptual humana, tão dominante, em parceria com a razão calculadora e quantitativa, no ciclo civilizacional que finda, como expressão também de uma hipertrofiada masculinidade da mente divorciada do seu natural complemento na feminilidade dos afectos e da sensibilidade.

Abre-se assim um enorme desafio para todas as consciências e líderes espirituais e religiosos do nosso tempo, bem como para todos os outros. Eis o que, numa proposta transversal a todas as tradições espirituais e religiosas, me parecem ser os pontos fundamentais desse desafio, no que respeita a um encontro e diálogo inter-religiosos mais plenos e a uma cidadania mais esclarecida e activa, por parte das comunidades espirituais e religiosas.

1 – Compreender e experimentar que o divino, o absoluto ou realidade última para que tende cada identidade e comunidade religiosa é igualmente transcendente a todas, como o seu fundo comum, não sendo posse exclusiva ou privilegiada de nenhuma delas.

2 – Compreender e experimentar que esse mesmo divino, absoluto ou realidade última transcende inequivocamente todas as formas de representação (imagens, palavras, conceitos, acções físicas) e portanto todas as doutrinas teológico-filosóficas e práticas litúrgicas que o visem, não podendo reduzir-se a qualquer dogma ou ritual, sob risco de se cair na idolatria, trocando-o pelo endeusamento daquilo que a seu respeito o ser humano imagina, concebe, diz e faz.

3 – Compreender e experimentar que daí decorre haver muitas vias e experiências que podem disponibilizar os seres humanos para acederem a esse divino, absoluto ou realidade última, não apenas as religiosas ou mesmo espirituais, mas também outras (de natureza ética, estética, social, política, etc.), incluindo as de quem se veja como ateu ou agnóstico.

4 – Compreender a partir daí a centralidade e urgência do encontro e do diálogo interculturais e inter-religiosos, mas abrindo estes a um encontro e diálogo mais amplos com agnósticos, ateus e todos aqueles que não se revirem em nenhuma destas etiquetas. Compreender que todos podem aprender com todos e que em cada via e comunidade religiosa tanto mais se progredirá no caminho para o divino, absoluto ou realidade última quanto mais o viajante se abrir à compreensão e ao respeito de outras vias, caminhos e modos de caminhar, religiosos ou não, para o mesmo destino. Compreender também que toda a forma de encontro e de diálogo intercultural e inter-religioso se deve fundar em algo de mais profundo e radical, o silêncio transcultural e trans-religioso, do qual pode surgir a escuta atenta do outro - não como estranho ou alheio, mas como irmão - e a palavra meditada e verdadeira. Compreender que o mais importante da religião é a espiritualidade, transversal a crentes e não-crentes, e que a espiritualidade – ou seja, a expansão fraterna da consciência - reside no âmago de toda a experiência humana, não só naquelas rotuladas como “religiosas” ou “espirituais”.

5 – Compreender e experimentar que o divino, o absoluto ou a realidade última se manifesta igualmente, embora de diverso e irrepetível modo, em todos os seres e coisas, estando integralmente presente em cada um e na totalidade dos seres e fenómenos do unimultiverso. Compreender que a esta luz todos os seres e fenómenos são sagrados, sendo poderosas e preciosas epifanias da natureza primordial de tudo, e que todas as hierarquias tradicionalmente concebidas entre os seres são sempre relativas a pressupostos, perspectivas e critérios humanos e não inerentes ao mundo visto a partir desse divino, absoluto ou realidade última, como acontece nas mais profundas experiências espirituais, por vezes designadas como “místicas”. Compreender que todos os seres estão assim interligados no seio do divino, absoluto ou realidade última, que todos são próximos, íntimos e inseparáveis e que todos possuem um valor intrínseco e não meramente instrumental. Compreender e experimentar que tudo quanto existe é a própria expressão gloriosa do absoluto ou realidade última, que o unimultiverso é sagrado e que o desencantamento do mundo nunca se deu, sendo apenas o desencantamento da mente e da subjectividade que transitoriamente perdeu a capacidade de percepcionar e sentir a abissal e íntima profundidade de todos e de cada um dos seres e fenómenos.

6 – Compreender que a partir daí não há nenhuma via para o divino, absoluto ou realidade última que não exija uma ética global, do respeito, reverência e cuidado integrais por todas as formas de vida, humanas e não-humanas, bem como pelos ecossistemas e pela natureza dos quais todas essas vidas dependem e que são igualmente manifestações plenas e exuberantes desse divino, absoluto ou realidade última.

7 – Compreender que toda a via para o divino, absoluto ou realidade última é incompatível com a cumplicidade, alheamento, indiferença ou desconsideração a respeito da discriminação, opressão e exploração a que sejam sujeitos quaisquer seres, enquanto manifestações e ícones vivos desse divino, absoluto ou realidade última. Compreender e praticar a necessidade de que a espiritualidade e a religião se exerçam na denúncia e no combate não-violento contra todas as formas dessa discriminação, opressão e exploração: religiosa, cultural, étnica, sexual, especista, social, económica e política. As identidades e comunidades espirituais e religiosas devem unir a sabedoria, o amor e a compaixão, a contemplação e a acção, as quais não se podem desenvolver isoladamente, promovendo novas formas de intervenção e acção no mundo, fundadas na descoberta da paz interior, da calma e da clareza mentais e espirituais mediante as práticas contemplativas e meditativas. Os líderes e as comunidades espirituais e religiosas devem convergir e unir-se para este fim, criando também plataformas de reflexão e acção convergentes com grupos e movimentos laicos da sociedade civil no sentido da transformação urgente que o novo ciclo cultural e civilizacional de todos pede.

8 – Compreender que as consciências e os líderes espirituais e religiosos devem ser sempre os primeiros exemplos da mudança que querem ver no mundo, mantendo um espírito aberto, fraterno, altruísta e desinteressado, sem apego à riqueza material, ao poder, à fama e ao prestígio. Compreender que o verdadeiro líder é aquele que se apaga no divino, absoluto ou realidade última e convida todos a fazerem o mesmo, descobrindo que a verdadeira liderança é em todos a do espírito divino ou da consciência desperta.

Estou convicto de que a simples ponderação e discussão destes pontos, ou de alguns deles, permitirá dar passos substanciais para um encontro e diálogo inter-religioso mais plenos e para uma cidadania mais esclarecida e activa por parte das comunidades espirituais e religiosas.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

"A cultura portuguesa é uma cultura de fronteira"

"(...) não existe uma cultura portuguesa, existe antes uma forma cultural portuguesa: a fronteira, o estar na fronteira. (...) A nossa fronteira não é "frontier", é "border". A cultura portuguesa é uma cultura de fronteira, não porque para além de nós se conceba o vazio, uma terra de ninguém, mas porque de algum modo o vazio está do lado de cá, do nosso lado. E é por isso que no nosso trajecto histórico-cultural da modernidade fomos tanto o Europeu como o selvagem, tanto o colonizador como o emigrante"

- Boaventura de Sousa Santos, Pela Mão de Alice. O social e o político na pós-modernidade, 2013, p.158.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A realidade é real?

Alguém que visse o nosso corpo através de um microscópio gigante e poderosíssimo o que veria? Decerto veria muito mais espaço insubstancial do que a aparente solidez da chamada "matéria" e nada veria da forma que tão real julgamos. Quem verá correctamente? O que temos por tão real, a começar pelo que chamamos o "nosso corpo",  é verdadeiramente real ou apenas a construção de uma percepção condicionada pelos actuais limites da nossa mente e dos nossos sentidos? E não se aplica o mesmo a toda a chamada "realidade" à nossa volta? Esta "realidade" das coisas, das pessoas e dos acontecimentos em cuja verdadeira existência tão irreflectidamente cremos e pela qual tanto sofremos, por apego e aversão...

domingo, 17 de novembro de 2013

como nuvens

como nuvens
miríades de fenómenos 
formam-se, transformam-se e dissipam-se no espaço

alguns pensam-se seres
mas nenhum perdura

O único tesouro é aquele do qual depende que algo se considere ou não como um tesouro

O único tesouro é aquele do qual depende que algo se considere ou não como um tesouro. É aquele que a tudo pode prezar ou desprezar. E esse nada nem ninguém nos pode tirar. A não ser estar inconsciente de si mesmo.

Sabes qual é? É o que te permite compreender isto. É o que és. Não tem forma, substância, cor ou volume. Também não tem nome, mas convencionalmente podemos chamar-lhe mente, cuja natureza profunda é ser consciente, feliz, amorosa e compassiva.  

A natureza primordial da mente é o único tesouro. Mas, obscurecida pela ignorância, quase sempre dá valor a tudo menos a si mesma. Infinita como o espaço que a tudo contém, vê-se como um ponto isolado ao qual tudo falta. Então a mente mente e torna-se demente. E sofre como uma danada, escrava do apego e da aversão, do medo e da expectativa, do egocentrismo, da possessividade, do orgulho, do ciúme, da avidez, do ódio e do torpor. Enquanto não despertar e reconhecer a sua liberdade e plenitude inatas.

Despertemos pois. É o melhor contributo para o bem de tudo e de todos. Uma consciência desperta, feliz e solidária é o principal fundamento de uma sociedade e um mundo melhores. 

sábado, 16 de novembro de 2013

"O ser humano é um anão de si mesmo"

"O ser humano é um anão de si mesmo, pois foi outrora repleto do espírito da natureza mas encolheu do que era e podia ser"

- Emerson

"Mas o que é isso que se senta no meu coração"

"Mas o que é isso que se senta no meu coração,
Que respira tão serenamente e sem pulmões -
Que está aqui, aqui neste mundo, e todavia não está?"

- Mary Oliver

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A verdadeira política radica no silêncio

Precisamos de silêncio nas nossas mentes, corações e vidas. Silêncio exterior e interior. Silêncio para ver, escutar e sentir, a nós e aos outros, a todos os seres vivos, ao mundo.

Silêncio para não manipularmos e não sermos manipulados. Pela conversa fiada, pela comunicação social, pela publicidade, pela propaganda religiosa ou política. 

A política actual degradou-se em retórica, marketing e publicidade, mas a verdadeira política, a da consciência, radica no silêncio. No silêncio da escuta e da reflexão serena, acima do turbilhão das emoções e da acção precipitada. A verdadeira política reside na capacidade de escutar as ideias dos outros, sobretudo dos adversários, e ter a humildade de reconhecer que podem ser melhores do que as nossas e mais conducentes ao bem comum. A verdadeira política não visa vencer, convencer ou converter. Visa despertar a mente e o coração para ver e sentir o que é o bem de todos os seres vivos e da Terra e agir em conformidade. Sem violência. Com um bom coração, amoroso e compassivo para tudo e todos.

Todos somos chamados a esta política. Há que libertá-la dos profissionais retóricos que jamais escutam e nunca se calam.

A Grande Política é a da consciência

A Grande Política é a da consciência. A mais eficaz acção política é aquela que transforme o que os humanos pensam, sentem e desejam 24 horas por dia, acordados ou a dormir. A Grande Política é a do despertar (ou adormecer) de consciências. Pretender mudar o mundo de outro modo, sem que a base de toda a acção seja a mudança das mentes, é estar a dormir, a sonhar e a delirar, por mais acordado e lúcido que alguém se julgue. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

"Pois os poetas são os mensageiros do nada / E toda a língua é estrangeira"

"0 poema fala-nos por um breve instante
Depois, vindo do secreto, ao silêncio retorna

Pois os poetas são os mensageiros do nada
E toda a língua é estrangeira"

- Robert Bréchon, Méditations Métapoétiques 

"(...) toda a língua é estrangeira"

- Robert Bréchon, "Méditations Métapoétiques"

É banal que a flecha atinja o alvo. Raro é que o alvo atinja a flecha. Então desaparece o arqueiro. 

É banal que a flecha atinja o alvo. Raro é que o alvo atinja a flecha. Então desperta o arqueiro. 

Um dia olhas-te ao espelho, a cara parte-se e o mundo acaba.

Uma das maiores e menos lamentadas perdas da humanidade é a da capacidade de espanto, admiração e maravilhamento.


Uma das maiores e menos lamentadas perdas da humanidade é a da capacidade de espanto, admiração e maravilhamento. De gratidão também. Sem isso, resta o tédio da vida e a sensação absurda de que tudo e todos nos devem alguma coisa. Sem isso, resta a tristeza.

"Se não fosse o hábito uma árvore matava-me"



"Se não fosse o hábito uma árvore matava-me. Não posso olhar o céu sem terror, e tenho de fechar todas as portas para voltar à vida comezinha"

- Raul Brandão, Húmus.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A descoberta e a urgência da meditação


A descoberta da meditação pelos ocidentais – enquanto treino da mente para manter uma atenção calma, clara e contínua, com profundos benefícios psicossomáticos, além do desenvolvimento cognitivo-afectivo - é um fenómeno histórico-cultural e civilizacional dos mais relevantes no final do século XX e no início do século XXI. A par da difusão da prática meditativa na população e das várias experiências de sucesso em escolas, empresas, prisões e hospitais, verifica-se um crescente interesse da comunidade científica pela meditação enquanto fonte de conhecimento acerca da relação mente-cérebro e das possibilidades da consciência, como mostram as experiências realizadas no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e noutros lugares, bem como os encontros Mind and Life, promovidos desde 1987 pelo Mind and Life Institute e onde investigadores de vanguarda, particularmente na área das neurociências, têm dialogado com o Dalai Lama e outros representantes de várias tradições.

Numa dessas experiências, juntou-se um grupo de praticantes de meditação no budismo tibetano, com 15 a 40 anos de prática, e um grupo de controlo de estudantes voluntários, com uma semana apenas de prática. Escolheram-se quatro tipos de meditação: 1 – o amor e a compaixão universais e imparciais; 2 – a atenção focada num único objecto, de modo claro, calmo e estável, sem torpor ou agitação mental; 3 – a presença aberta, em que a mente está consciente e atenta, mas sem se focar em nenhum objecto particular; 4 – a visualização de imagens mentais. Enquanto alternavam repetidas vezes períodos neutrais de trinta segundos com períodos de noventa segundos em cada um destes estados meditativos, os praticantes foram submetidos a electro-encefalogramas, que permitem captar alterações na actividade cerebral em milésimos de segundos, e a imagens de ressonância magnética funcional, que localizam com rigor a actividade cerebral. 

Os resultados mostraram espectaculares diferenças entre os praticantes experientes e os noviços, que provam a plasticidade do cérebro e a possibilidade de o transformar e desenvolver mediante a prática regular da meditação. Por exemplo, ao meditar sobre o amor e a compaixão houve um aumento da actividade cerebral de alta-frequência, as chamadas “ondas gama”, “de um tipo nunca antes relatado na literatura científica”, segundo o Professor Richard Davidson. A actividade cerebral concentrou-se também no córtex pré-frontal esquerdo, a sede de emoções positivas, geradoras de bem-estar, como alegria, entusiasmo e altruísmo. Constatou-se também, nos praticantes experientes, a capacidade de regular voluntariamente a actividade mental, concentrando-se exclusivamente numa tarefa sem distracções; a identificação de emoções em rostos que aparecem num ecrã durante um quinto de segundo, sinal de um superior poder de empatia; e a inédita e espantosa neutralização do reflexo do susto, mesmo perante o disparo de uma arma junto do ouvido: uma vez que esse reflexo depende da predisposição para o medo, a raiva e a repugnância, os resultados sugerem “um nível de serenidade emocional impressionante”.

Não admira que o Dalai Lama tenha aberto, em 2005, os trabalhos do Neuroscience, o mais prestigiado congresso de neurocientistas do mundo, em Washington. E que já se fale da meditação como alternativa ao Prozac. Segundo declarações recentes do biólogo Eric Lander, membro do Projecto Genoma Humano: "Não é inconcebível que, dentro de 20 anos, as autoridades americanas de saúde recomendem 60 minutos de exercício mental cinco vezes por semana". A meditação faz hoje parte dos cuidados de saúde e hospitalares, bem como das actividades escolares e empresariais em muitos lugares do mundo, integrando o horário de trabalho de mais de um quarto das maiores empresas norte-americanas.

Há por outro lado no Ocidente a ânsia de uma ética e espiritualidade prática alternativa ao materialismo e niilismo contemporâneos e eficaz no lidar com o sofrimento, os conflitos internos e o sentimento do sem sentido da existência. Sinal dessa busca espiritual é a corrida a livros de autocura, desenvolvimento pessoal e esoterismo, onde, a par de uma minoria de obras credíveis, o público se expõe a todos os riscos da exploração comercial pela nova indústria dos sucedâneos das tradições espirituais autênticas, muitas vezes misturados nos estéreis ou já perigosos cocktails “espirituais” New Age (sem prejuízo das boas intenções que sob este rótulo se conjugam). 

Esta situação torna ainda mais urgente redescobrir a profunda experiência meditativa, veiculada pelas tradições autênticas da humanidade e por aqueles que as renovam mediante uma verdadeira inspiração interior, traduzida numa vida exemplar, desprendida do engodo pelo poder, a fama e a riqueza, critério seguro de autenticidade. Por outro lado, o estado actual da civilização, o agravamento da relação destrutiva da humanidade com a natureza, os seres vivos e consigo mesma, tornam também urgente redescobrir a experiência meditativa. Estamos convictos que a meditação, não religiosa, mas secular, é hoje chamada a estar no centro de um novo paradigma mental, ético e cultural-civilizacional, e de uma nova organização social, política e económica, em que se assuma que a natureza e os seres sencientes, humanos e não-humanos, são inseparáveis de nós, possuem um valor intrínseco e não são meros objectos e recursos a explorar para a (impossível) satisfação da nossa avidez. É que a ausência dessa visão não-dual e holística, que em boa parte reflecte a ausência da experiência meditativa nos decisores mais responsáveis pelo destino do mundo, arrisca-se a precipitar-nos num imenso colapso ecológico-social.



Livres como a liberdade é livre de o ser


Queremos libertar-nos de tudo menos da ideia de não sermos fundamentalmente livres. E portanto responsáveis por tudo o que pensamos, dizemos e fazemos ou não. Responsáveis pelo modo como percepcionamos e reagimos a tudo. Responsáveis pelo que vemos ou não como real. Responsáveis. Pois nada nos é exterior. Só a mente a si mesma se fere ou acarinha, se adormece ou desperta, se oprime ou liberta. Os outros são inseparáveis de os vermos como outros. Inseparáveis de nós.

Mas no fundo sem fundo somos até livres de nós e dos outros. Livres de sermos livres. Livres como a liberdade é livre de o ser.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

"A vida é breve, a alma é vasta: / Ter é tardar"


"A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar"

- Fernando Pessoa, "O das Quinas", Mensagem.

"...um novo avatar do mito que encarna a verdadeira vida..."


“Dioniso, o Grande Libertador, patrono do desregramento dos sentidos pregado pelos surrealistas, quebra os laços impostos pela ordem apolínea da personalidade, restituindo-nos o tesouro dos mitos. É nessa terra dos tesouros que o surrealismo vai buscar as significações do valor universal, sistematicamente cilindradas pelo particularismo da consciência reflexiva, assumindo-se como o pesquisador de um novo avatar do mito que encarna a verdadeira vida escamoteada pelas normas de uma atitude lógica-repressiva e acosmística. Não se trata de reabilitar os mitos legados pelo passado, mas de restabelecer as forças que nutriam a consciência mítica, utilizando-as para consumar o parto difícil de um mito moderno que a nossa época exige como única solução possível para as precárias condições de vida que nos oferece”

- António Maria Lisboa, “O mito e o ultimato surrealista a todas as formas de opressão”.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Redescobrir o mistério da bondade

“[Sobre os “heróis” altruístas:] Em vez de tentarmos educadamente criar uma distância entre eles e nós ao mesmo tempo que louvamos as suas acções, não seria preferível redescobrir o potencial altruísta em nós? […]

Não procuremos explicações misteriosas para a bondade nos outros, mas redescubramos antes o mistério da bondade em nós mesmos”

- Mordecai Paldiel, “Is goodness a mistery?”, Jerusalem Post, 8 de Outubro de 1989.

A "banalidade do bem" segundo Matthieu Ricard


“Pôde-se falar da «banalidade do mal» [Hannah Arendt]. Mas poder-se-ia também falar da «banalidade do bem», evocando as mil e uma expressões de solidariedade, de atenção e de compromisso a favor do bem de outrem que balizam as nossas vidas quotidianas e exercem uma influência considerável sobre a qualidade da vida social. Além do mais, aqueles que realizam estes inumeráveis actos de entreajuda e de solicitude dizem em geral que é plenamente “normal” ajudar o seu próximo. Se se justifica evocar esta noção de banalidade, é também por ela ser de algum modo silenciosa: o bem de todos os dias é anónimo; ele não ocupa o centro das atenções dos órgãos de comunicação ao modo de um atentado, de um crime crapuloso ou da libido de um político. E, enfim, se há banalidade é ainda o sinal de que nós somos todos potencialmente capazes de fazer o bem à nossa volta”

- Matthieu Ricard, Plaidoyer pour l’altruisme. La force de la bienveillance, Paris, NiL, 2013, pp.110-111.

Mistério e alarme


“Nem o mistério é tanto o que se nos furta à associação lógica, como o que se nos revela sob a obscura forma de um alarme. Sentir a vida nos limites extremos da sua revelação é percebê-la de dentro para fora, nos recessos profundos de nós próprios, na fulguração imediata: essa é a dimensão do «mistério»”

- Vergílio Ferreira, Do mundo original.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Os benefícios de meditar no amor altruísta segundo o budismo e a neurociência

Uma meditação budista tradicional, metta bhavana, a meditação do amor altruísta, está a ser usada pelos neurocientistas para estudar o efeito deste sentimento sobre a mente, o corpo e o comportamento humanos. Consiste em começar por nós mesmos, visualizando uma luz no coração onde ao inspirar todo o nosso sofrimento se absorve e dissipa, para na expiração a irradiarmos impregnando-nos de luz, paz e felicidade. Alargamos depois a prática a entes queridos que visualizamos diante de nós, inspiramos o seu sofrimento para os libertarmos dele e, ao expirarmos, enviamos-lhes toda a paz, toda a felicidade e todo o bem. Continuamos depois alargando a experiência a conhecidos, a desconhecidos e àqueles que vemos com aversão, até abrangermos todos os seres vivos, humanos e não-humanos, em todo o universo.

Uma experiência recente conduzida por Barbara Fredrickson, com um grupo de pessoas que nunca haviam praticado meditação e que praticaram metta bhavana vinte minutos por dia durante sete semanas, mostrou que ao fim deste tempo, e por comparação com um grupo de controle de pessoas que nada praticaram, os primeiros sentiam mais amor, empenho nas actividades quotidianas, serenidade, alegria e muitas outras emoções positivas. Estes efeitos estenderam-se ao longo do dia e aumentaram à medida que o tempo passava. Por outro lado, verificou-se que este exercício aumenta o tónus vagal (relacionado com a actividade do nervo vago, que liga o cérebro ao coração e a outros órgãos). A investigação constata que pessoas com um tónus vagal elevado se adaptam melhor física e mentalmente a circunstâncias em mutação e são mais aptas a regular os processos fisiológicos internos (açúcar no sangue, resposta às inflamações), tal como as suas emoções, atenção e comportamento. Estão menos sujeitas a crises cardíacas e acidentes vasculares cerebrais, têm o sistema imunitário mais robusto e contraem menos diabetes e vários tipos de câncer.

Perante isto, o psicólogo Paul Ekman propõe que se criem “ginásios do amor altruísta”. A redescoberta da meditação confirma-se como a grande revolução do século XXI, a revolução silenciosa. Vamos praticar?

(Muita informação sobre o assunto no último e excelente livro de Matthieu Ricard, Plaidoyer pour l’altruisme. La force de la bienveillance, Paris, NiL, 2013. Ver também: Barbara Fredrikson, Love 2.0: How Our Supreme Emotion Affects Everything We Feel, Think, Do, and Become, 2013).

O que é um caminho "espiritual"? Para uma desconstrução dos delírios "New Age"

Abundam nos dias de hoje todo o tipo de ideias confusas, fantasistas e delirantes sobre o que é um caminho “espiritual”, vindas sobretudo de quem faz saladas e cocktails espirituais, esotéricos ou místicos com elementos díspares das várias tradições da humanidade, descontextualizados e combinados por sua conta e risco (e risco de outros) e sem a mínima orientação de mestres, professores ou instrutores credíveis. São essas saladas e cocktails que todo o tipo de self-made gurus vende no grande bazar do nosso tempo, onde a mercantilização também chegou às coisas do espírito e onde, sob o rótulo da New Age e de uma suposta evolução colectiva caída do céu, se pretendem legitimar todos os delírios.

Há todavia indicadores básicos e seguros, atestados pelas grandes tradições da humanidade e baseados na experiência milenar de praticantes evoluídos, de que se segue um caminho “espiritual”, ou seja, não religioso, mas de emancipação e desenvolvimento da consciência para além da ficção do ego e das ficções do ego. Um deles, presente na via do Buda, é o de nos estarmos progressivamente a emancipar das oito preocupações mundanas: apego ao ganho e aversão à perda, apego ao prazer e aversão à dor, apego ao elogio e aversão à censura, apego à fama e aversão ao desprezo. Isto, a par do crescimento de um amor e compaixão incondicionais por todos os seres, humanos e não-humanos, incluindo adversários e inimigos, é um sinal seguro de que, nestes tempos confusos de tantos falsos profetas, não nos estamos a auto-enganar nem a enganar os outros.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Lançamento de "É a Hora! A mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa", 28 de Novembro, 18.30, na Bertrand Picoas


Convido-vos para o lançamento do meu último livro, que será apresentado pelo romancista e ensaísta Miguel Real. Trata-se de uma interpretação e comentário, poema a poema, da "Mensagem" de Fernando Pessoa, que oferece uma leitura universalista da obra pessoana, destinada a todas as consciências, não só portuguesas e lusófonas, que aspirem a despertar e a integrar uma nova comunidade trans-nacional, trans-cultural e trans-religiosa, criadora de um novo ciclo de civilização, segundo um paradigma holístico e integral, que vise o bem de todos os seres.

A obra é editada pela Temas e Debates / Círculo de Leitores.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ecologia e desenvolvimento da consciência interior


"(…) a única agenda realmente importante para os verdadeiros ecologistas em qualquer parte é a criação, a evolução e o desenvolvimento da própria consciência interior. Os principais problemas de Gaia não são a industrialização, a diminuição do azono, a sobre-população e o esgotamento dos recursos. O principal problema de Gaia é a falta de entendimento mútuo e comum acordo na noosfera sobre como proceder em relação a essas dificuldades. A maioria dos eco-filósofos focam milhares de outras coisas que precisam ser feitas e ignoram totalmente o maior e principal problema: como levar as pessoas a ver os problemas e a chegar a acordo sobre a forma de os resolver. E a única maneira de fazer isso é através da evolução da consciência de modos egocêntricos de pensamento para modos sociocêntricos e globocêntricos."

- Ken Wilber, A Brief History of Everything

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Política da consciência e mudança de paradigma, 1 de Novembro, 18.30

"Política da Consciência e Mudança de Paradigma"

Uma proposta para uma mudança radical da política convencional.

Palestras e debate com Paulo Borges e Daniela Velho (presidente e vice-presidente da Direcção Nacional do PAN)

O primeiro de um novo ciclo de PANdebates com novos temas a anunciar em breve.

Na sede nacional do PAN, Rua Anchieta, nº5, 4º esq., em Lisboa (ao Chiado)

Entrada livre e limitada a 40 pessoas

Os PANdebates terão uma periodicidade mensal. Reserve o seu lugar, através do geral@pan.com.pt ou 213426226.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Agostinho da Silva, Fernando Pessoa e a Mensagem em Setúbal

Em Torno de Agostinho da Silva

II Ciclo de tertúlias na Casa Bocage
Rua Edmond Bartissol 12, Setúbal
2 Novembro, 16h

"Agostinho da Silva e a Mensagem de Fernando Pessoa”, por Paulo Borges

Lançamento do livro: "É a Hora! A mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa", de Paulo Borges

domingo, 27 de outubro de 2013

Paulo Borges: "Animais sentem a tristeza e a alegria"

Paulo Borges: "Animais sentem a tristeza e a alegria"

O que fica da ideia de "progresso" perspectivada à escala planetária?

Segundo um estudo do Professor Phillip Harter, da Stanford University, se considerássemos toda a população da Terra como um aldeia de apenas 100 pessoas, a sua composição seria a seguinte:

57 seriam asiáticos.
21 europeus
14 americanos (do Norte e do Sul)
8 africanos
30 brancos
70 não brancos
6 possuiriam 59% da riqueza do mundo (e seriam norte-americanos)
80 viveriam em condições infra-humanas
70 seriam analfabetos
50 sofreriam subnutrição 
1 teria educação universitária
1 possuiria computador

Comentários? O que fica da ideia de "progresso" se perspectivada à escala planetária?

sábado, 26 de outubro de 2013

O vegetarianismo e o verdadeiro heroísmo, o do amor

"Dobrámos o cabo das Tormentas, escravizámos o índio, e ameaçando a terra, o mar e o mundo, tudo calcámos victoriosos e em nossos triunfos nos glorificámos. Se porém me fosse dado escolher entre a sorte do vencedor e a do vencido, diria, com pena de incorrêr em acusação de traição ao amor da pátria, que a todas as nossas glórias, que são muitas, sem embargo, e brilhantes, eu preferiria que como na Índia do seculo XVIII, trez milhões de portuguezes tivessem a coragem, que o índio teve, de preferirem morrer de fome a matar os animais seus companheiros e seus servos e amigos.

Não sei de maior grandeza na história. Não sei de exemplo de mais sublimada moralidade duma raça, de mais grandiosa, perfeita e absoluta imolação ao amor, a este amor que é a essência da vida, a razão de ser da nossa existência, o padrão único por que se póde aferir a grandeza humana, «o comêço de todo o pensamento digno d'este nome» na feliz expressão de Carlyle.

Heroísmo por heroísmo, o d'esses vencidos que maltratámos, foi infinitamente superior às façanhas militares de que tanto nos orgulhamos"

- Jaime de Magalhães Lima, O Vegetarismo e a moralidade das raças, Porto, Sociedade Vegetariana, 1912.

Não esperes demasiado dos outros. Sê antes o melhor que deles esperas. 

"O cume da civilização não é possuir e acumular sempre mais, mas reduzir e limitar as suas necessidades" - Gandhi 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Em que nível estamos?


Em que nível estamos?

0. A questão não se coloca por inconsciência de si e de tudo.
1. O que é o melhor para mim?
2. O que é o melhor para o meu grupo ou para os "meus", do mais estreito ao mais abrangente dos círculos: família, amigos, tribo, empresa, clube, partido, nação, comunidade de língua e cultura, religião/comunidade de visão do mundo?
3. O que é o melhor para todos os seres humanos?
4. O que é o melhor para todos os seres na Terra?
5. O que é o melhor para todos os seres no Universo?
6. O que é o melhor para o Universo?
7. A questão não se coloca porque se é esse "Melhor", livre do conceito de o ser e de todos os conceitos anteriores.
8. A questão não se coloca pela mesma razão, mas compreendem-se e amam-se todos aqueles para quem ela se coloca em cada um dos níveis anteriores e vê-se claramente como comunicar e agir de modo a ajudar cada um a progredir nesta escala.

Do nível predominante em que estivermos, porque frequentemente oscilamos ao longo da vida e até de um dia entre vários, depende tudo o que pensamos, dizemos e fazemos, o sentimento de autorealização e a capacidade de beneficiar um círculo cada vez mais amplo de seres.

Nota: não confundir o nível 0 com o 7.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Meditar no amor e na compaixão universais


"MÉTODO DE MEDITAÇÃO

Sentemo-nos agora apenas com as nossas mentes repousando “aqui e agora”. Quando fazemos isto, primeiro que tudo temos um vislumbre do estado fresco da mente. Mas não podemos ficar muito tempo nesse estado: pensamentos começam a emergir. Quando se manifestam, em vez de tentarmos pará-los, canalizemos a energia dessas ondas de pensamento numa direcção positiva mediante o seguinte exercício. À medida que expiramos vamos desejar que aqueles seres que nos são queridos estejam felizes e obtenham as causas da felicidade. Cultivemos então a mesma aspiração não apenas em relação àqueles que nos são queridos, mas para todos os seres, sem excepção. Com cada sopro enviamos-lhes as causas de felicidade na forma de luz radiante repleta de pensamentos de amor, um grande amor por todos os seres, em todas as formas de existência.

Relaxemos agora de novo, deixando as nossas mentes repousar “aqui e agora”. Então, quando pensamentos emergirem outra vez, dirijam-nos para todos os seres que sofrem. Pensem em todas as pessoas nos hospitais, que estão doentes ou a passar por cirurgias; em todos os seres, em todas as formas de existência, que experimentam sofrimento físico ou mental e especialmente medo nos seus diferentes aspectos. Pensem em todas as pessoas que estão a morrer ou mortas e a passar por experiências que são frequentemente desagradáveis. Que estejamos conscientes de todos estes e que aspiremos do fundo dos nossos corações a que todos os seres sejam livres do sofrimento e das suas causas. À medida que expiramos, enviemos ondas de compaixão. Relaxem de novo e deixem a mente repousar “aqui e agora”.

Para concluir, dediquemos a energia positiva que acumulámos mediante a nossa pura intenção, bem como o tempo e esforço que investimos em estudar este texto e praticar, para o nosso próprio progresso e a felicidade e a paz de todos os seres vivos. Aspiremos a que todos os seres sem excepção encontrem a liberdade última. Deste modo não restringiremos a nossa energia positiva ao nosso próprio pequeno círculo; estendê-la-emos infinitamente no tempo e no espaço. Ela durará assim enquanto a infinidade dos seres no universo, até ao derradeiro, necessitar dela. A arte de dedicar o mérito muda completamente o poder de qualquer acto positivo que façamos, mesmo se consiste simplesmente em oferecer um bocado de comida a uma pessoa ou animal esfomeados"

- Taklung Tsetrul, comentário a "O Treino da Mente em Oito Estâncias", de Langri Thangpa.

A superação do sebastianismo e do messianismo em Fernando Pessoa


"Este poema ["A Última Nau"] é o primeiro de vários que assinalam claramente a importância de passar do sebastianismo para a experiência do regresso ou desocultamento de D. Sebastião no que ele simboliza, de passar da saudade, enquanto memória e esperança, para a saúde, enquanto experiência directa da plenitude, integridade e totalidade jamais perdida [1]. Pensador e proponente de um neosebastianismo em que D. Sebastião é um símbolo multidimensional e polivalente, Pessoa orienta-o para a experiência do regresso de D. Sebastião como o próprio despertar da consciência para o fundo de si mesma, ou seja, orienta-o para o fim do sebastianismo. O poeta supera a mera hermenêutica histórico-cultural do sentido do Encoberto e a mera profecia do seu regresso real ou simbólico para se tornar/desvelar o próprio Encoberto (o mesmo que aliás implicitamente assume, embora sob o signo da interrogação expectante, no único poema da Mensagem que significativamente não tem título e é escrito na primeira pessoa [2], a par do texto de interpretação das profecias do Bandarra onde anuncia que a terceira vinda do Encoberto/D. Sebastião se deu em 1888, ano do seu nascimento [3]). A partir deste poema, se outros textos não houvesse, sabemos que Pessoa se experienciou como D. Sebastião ou como o desencobrimento desse Encoberto que, na nossa leitura, é esse universal fundo sem fundo da consciência a que por isso mesmo todos têm acesso, desde que dissipem os véus que o encobrem. Como logo veremos, ao comentar o poema “D. Sebastião”, que abre a terceira parte da Mensagem, precisamente intitulada “O Encoberto”, Pessoa inverte a esperança sebástica, em que se espera passivamente que o rei regresse, vindo do exterior, na espera vivida pelo próprio rei de que alguém activamente o faça em si regressar, não como aquele que partiu, mas como “O” que simboliza e incarna [4]. Em alguns textos em prosa, Pessoa critica e distancia-se claramente dos intérpretes do “sebastianismo tradicional” que, condicionados “pelo espirito catholico, esperavam de fóra o Encoberto, aguardavam inertes a salvação externa”. Inseparável do Quinto Império, o Encoberto virá quando os humanos criarem “as forças espirituais” de onde virá esse “Imperio” que veremos ser o de um outro estado comunitário de consciência. Neste sentido, “não é de fóra, é de dentro que apparecerá D. Sebastião”, por uma particular iniciativa de cada um [5]. Como escreve o poeta-pensador: “É dentro de nós, em nós e por nosso exforço, que tem de vir, e virá, D. Sebastião. O Sebastianismo só é infecundo e estiolante quando o interpreto litteralmente, como a sperança da vinda exterior do Rei ido, vinda que, sem nosso exforço, milagrosamente nos haja de salvar” [6]. Com isto se passa de um particular avatar mítico-histórico de uma forma do messianismo universal, o sebastianismo, para o fim deste e de todo o messianismo, que se cumpre e anula nesta “hora” do despertar da consciência que pode revelar em todo e cada homem o Messias potencial que desde sempre e intimamente é"

- Paulo Borges, É a Hora! A mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa, Lisboa, Temas e Debates / Círculo de Leitores, 2013.



[1] Cf. Paulo BORGES, Da saudade como via de libertação, Matosinhos/Lisboa, QuidNovi, 2008, pp.33-34; “Saudade e saúde. Saudar e salvar: para uma teoria das duas saudades”, in AAVV, Sobre a Saudade, coordenação de António Braz Teixeira, Arnaldo Pinho, Maria Celeste Natário e Renato Epifânio, Sintra, 2012, Zéfiro, pp.65-74; Odon VALLET, “Salut”, Petit lexique des mots essentiels, pp.232-234.
[2] Cf. o “Terceiro” dos “AVISOS”, cujo primeiro verso é “Screvo meu livro à beira-magua” – Fernando PESSOA, Mensagem, pp.85-86.
[3] Cf. Id., Obras, III, pp.652-653.
[4] Cf. Id., “D. Sebastião”, Mensagem, p.75.
[5] Cf. Id., Sebastianismo e Quinto Império, pp.72-73 e 75. Pessoa neste passo considera que as referidas “forças” “são a ansia de dominio, e a tensão de todas as potencias da alma em torno d’essa ansia” (p.73), concepção que deve ser entendida à luz de outros textos que tornam claro que se trata de um Império cultural e espiritual. 
[6] Ibid., pp.74-75.