“Sou feito da inteira evolução da Terra; sou um microcosmo do macrocosmo. Nada há no universo que não esteja em mim. O inteiro universo está encapsulado em mim, como uma árvore numa semente. Nada há ali fora no universo que não esteja aqui, em mim. Terra, ar, fogo, água, tempo, espaço, luz, história, evolução e consciência – tudo está em mim. No primeiro instante do Big Bang eu estava lá, por isso trago em mim a inteira evolução da Terra. Também trago em mim os biliões de anos de evolução por vir. Sou o passado e o futuro. A nossa identidade não pode ser definida tão estreitamente como ao afirmar que sou inglês, indiano, cristão, muçulmano, hindu, budista, médico ou advogado. Estas identidades rajásicas são secundárias, de conveniência. A nossa identidade verdadeira ou sáttvica é cósmica, universal. Quando me torno consciente desta identidade primordial, sáttvica, posso ver então o meu verdadeiro lugar no universo e cada uma das minhas acções torna-se uma acção sáttvica, uma acção espiritual”

- Satish Kumar, Spiritual Compass, The Three Qualities of Life, Foxhole, Green Books, 2007, p.77.

“Um ser humano é parte do todo por nós chamado “universo”, uma parte limitada no tempo e no espaço. Nós experimentamo-nos, aos nossos pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto – uma espécie de ilusão de óptica da nossa consciência. Esta ilusão é uma espécie de prisão para nós, restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e ao afecto por algumas pessoas que nos são mais próximas. A nossa tarefa deve ser a de nos libertarmos desta prisão ampliando o nosso círculo de compreensão e de compaixão de modo a que abranja todas as criaturas vivas e o todo da Natureza na sua beleza”

- Einstein

“Na verdade, não estou seguro de que existo. Sou todos os escritores que li, todas as pessoas que encontrei, todas as mulheres que amei, todas as cidades que visitei”

- Jorge Luis Borges

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

"Será que aquilo que nos traz impressões desagradáveis não pertence tanto ao plano da natureza quanto o que há de mais amável nela?"

"Será que aquilo que nos traz impressões desagradáveis não pertence tanto ao plano da natureza quanto o que há de mais amável nela?

Será que as tempestades furiosas, as inundações, as chuvas de fogo, as lavas subterrâneas e a morte em todos os elementos não são testemunhas tão verdadeiras da vida eterna da natureza como o sol erguendo-se magnificamente sobre as vinhas opulentas e os bosques odoríferos de laranjeiras?

O que vemos da natureza é força que devora a força: nada permanece presente, tudo passa, mil germes esmagados, a cada instante mil germes nascidos, (...) belo e feio, bom e mau, tudo existindo um ao lado do outro com o mesmo direito"

- Goethe

Não sentes nada de estranho, lá bem no fundo de ti mesmo?

Não sentes nada de estranho, lá bem no fundo de ti mesmo? Mesmo quando tudo parece normal à tua volta? Não, não é no corpo, nem nas emoções, nem nos pensamentos, por mais estranhos que por vezes sejam. É mais fundo, mais fundo. É antes de tudo o que estás habituado a pensar e sentir. Sim, é por aí... É aí mesmo. É isso, é isso. EXISTES!!! ESTÁS VIVO!!! E tens um mundo imenso diante e dentro de ti, com tanta coisa em aberto, com tanta coisa… Não é tão estranho!? E mais estranho ainda quase nunca darmos por isso, não é!? Mas, já agora que deste por isso, já agora que despertaste, aproveita e não adormeças de novo. Eu juro que estou a tentar fazer o mesmo. Estamos juntos. Até já!

"Todas as espécies, povos e culturas têm um valor intrínseco"


Princípios da Democracia da Terra

1. Todas as espécies, povos e culturas têm um valor intrínseco: todos os seres são sujeitos dotados de integridade, inteligência e identidade e não objectos susceptíveis de converter-se em propriedade de outros, de ser manipulados, de ser explorados ou de ser eliminados. Nenhum ser humano tem direito a ser dono de outras espécies, de outras pessoas ou dos conhecimentos de outras culturas por meio de patentes e outros direitos de propriedade intelectual.

2. A comunidade da Terra é uma democracia de toda a vida no seu conjunto: todos somos membros da família da Terra e estamos interconectados através da frágil rede da vida do planeta. Todos temos o dever de viver de um modo que proteja tanto os processos ecológicos da Terra como os direitos e o bem-estar de todas as espécies e de todas as pessoas. Nenhum ser humano tem direito a imiscuir-se no espaço ecológico de outras espécies e de outras pessoas nem a tratá-las com crueldade e violência.

- Vandana Shiva, Earth Democracy. Justice, Sustainability, and Peace, 2005.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

"Todas as espécies, povos e culturas têm um valor intrínseco"

Princípios da Democracia da Terra

1. Todas as espécies, povos e culturas têm um valor intrínseco: todos os seres são sujeitos dotados de integridade, inteligência e identidade e não objectos susceptíveis de converter-se em propriedade de outros, de ser manipulados, de ser explorados ou de ser eliminados. Nenhum ser humano tem direito a ser dono de outras espécies, de outras pessoas ou dos conhecimentos de outras culturas por meio de patentes e outros direitos de propriedade intelectual.

- Vandana Shiva, Earth Democracy. Justice, Sustainability, and Peace, 2005.

Não acreditas na possibilidade de transformar as pessoas e o mundo!?

Não acreditas na possibilidade de transformar as pessoas e o mundo!? Então constata o que pensavas e fazias há 10, 15, 20 ou 30 e mais anos e o que pensas e fazes agora. Recorda como eras quando nasceste e vê o que és agora. Vê a diferença, deixa de negar aquilo de que és a mais viva prova e deixa de perder tempo com desculpas que não tens para te acomodares e não continuares a mudar. Mas procura mudar sempre para melhor, ou seja, para o que traga cada vez mais consciência e felicidade a ti e a todos os seres.

Porque tememos a morte e não a vida e a existência?

Porque tememos a morte e não a vida e a existência? A vida e a existência são menos estranhas, desconhecidas e imprevisíveis do que a morte? Viver e existir é ser possível acontecer-nos tudo a cada instante, inclusivamente a morte… E isto constantemente. Ao passo que a morte só vem uma vez, no final da vida. A morte é trivial. A vida e a existência são o verdadeiro milagre de cada instante. Para tomar consciência disto basta sermos realistas: nada ter por conhecido, certo e garantido. Então tudo se tornará um mistério maior do que a morte: mesmo o simples estar sentado ao sol ou postar banalidades no Facebook.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Não sou um bombista nem as suas vítimas na Síria


Não sou um bombista nem as suas vítimas na Síria
nem um tibetano a imolar-se por desespero na sua terra ocupada
Não sou um toureiro, um cavalo ou um touro com o lombo trespassado
numa arena de sangue, dor e morte
Também não estou na multidão em êxtase que paga para que isso aconteça
Não sou um especulador financeiro que enriquece com a miséria das populações
nem um ministro ou juiz que decide a favor dos poderosos
Não sou um cão ou gato abandonado por quem se cansou do meu amor
nem estou a tremer de medo e angústia num canil de abate
Não sou um porco, uma vaca ou um frango amontoado num campo de concentração
para oferecer vinte minutos de prazer aos humanos
e intoxicá-los com a minha carne envenenada
Não sou uma mãe separada dos filhos
com as tetas a escorrer pus escrava da ordenha mecânica
para que os humanos bebam o leite que não necessitam e os faz adoecer
Não sou um deputado pago para esquecer quem o elegeu
nem um primeiro-ministro ou presidente a vender o seu país aos senhores do mundo
Não sou um rato torturado e aberto em vida para que a ciência conclua que sofro
nem estou a ser morto à pancada para me retirarem a pele ainda vivo
Não sou um tigre nascido para a selva a definhar triste atrás de umas grades
um elefante espicaçado para mostrar habilidades
ou uma ave com asas de lonjura engaioladas
Não sou pago para veicular mentiras na rádio, tv e jornais
nem sou administrador, director ou accionista de empresas
que lucram com o trabalho escravo de mulheres, homens e crianças
Não sou um médico ao serviço da indústria farmacêutica
nem um profissional da alienação das consciências
Não sou uma mãe a ver os filhos despedaçados por mísseis
ou violados e mortos à sua frente
Não sou o presidente, o ministro ou o general
que no conforto do gabinete ordena o inferno para os outros
Não trabalho para empresas ávidas de lucro que poluem, devastam e destroem o planeta que pertence igualmente a todos os seres vivos
e às gerações futuras de humanos e não-humanos
Não trafico drogas nem ilusões
e não vendo receitas de felicidade com assinaturas espirituais ou religiosas
Não pertenço nem quero pertencer às corporações dos senhores do mundo
ocultos na sombra a mudar governos e manipular povos como marionetas
Não sou um terrorista camuflado nem engravatado,
com armas, ideologias ou planos económico-financeiros
nem um eleitor que confunde a democracia com votar de vez em quando
e não ter controle sobre quem elege
Não sou também um activista que sucumbe ao ódio e ao desespero
e envenena as causas que defende
com a violência que lhe estreita a mente e devora o coração


Não, não sou nada disto
Não sou ninguém especial
Apenas alguém que pode reconhecer a imensa liberdade e oportunidade de que agora mesmo desfruta
para apreciar a vida sem esquecer o sofrimento do mundo
e concentrar-se no essencial enquanto há energia e a morte não chega:
despertar a mente e o coração
e tudo fazer para expulsar a ignorância, o sofrimento e o absurdo da face da Terra

Sim, é isso que sou
Sim, é isso que és
e connosco a grande maioria dos humanos:
sementes de um Mundo Novo

Despertemos, juntemo-nos e germinemos pois!


23 de Fevereiro – 27 de Novembro de 2013

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Quinta-feira, 28, 18.30, lançamento de "É a Hora! A mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa", na Bertrand Picoas Plaza


Convido-vos para o lançamento do meu último livro, que será apresentado pelo romancista e ensaísta Miguel Real. Trata-se de uma interpretação e comentário, poema a poema, da "Mensagem" de Fernando Pessoa, que oferece uma leitura universalista da obra pessoana, destinada a todas as consciências, não só portuguesas e lusófonas, que aspirem a despertar e a integrar uma nova comunidade trans-nacional, trans-cultural e trans-religiosa, criadora de um novo ciclo de civilização, segundo um paradigma holístico e integral, que visa o bem de todos os seres.

A obra é editada pela Temas e Debates / Círculo de Leitores.

"A simpatia estendida para fora dos limites da humanidade, ou seja, a compaixão para com os animais, parece ser uma das últimas aquisições morais"



“À medida que o homem avança na civilização e que as pequenas tribos se reúnem em comunidades mais numerosas, a simples razão indica a cada indivíduo que deve estender os seus instintos sociais e a sua simpatia a todos os membros da mesma nação, se bem que não sejam pessoalmente seus conhecidos.
Atingido este ponto, apenas uma barreira artificial pode impedir as suas simpatias de se estenderem a todos os homens de todas as nações e de todas as raças. A experiência prova-nos, infelizmente, quanto é necessário tempo antes que consideremos como nossos semelhantes os homens que diferem consideravelmente de nós pelo seu aspecto exterior e pelos seus costumes.
A simpatia estendida para fora dos limites da humanidade, ou seja, a compaixão para com os animais, parece ser uma das últimas aquisições morais. […] Esta qualidade, uma das mais nobres de que o homem é dotado, parece provir casualmente do facto de que as nossas simpatias, tornando-se mais delicadas à medida que mais se estendem, acabam por se aplicar a todos os seres vivos. Esta virtude, uma vez honrada e cultivada por alguns homens, expande-se nos jovens pela instrução e pelo exemplo, e acaba por se fazer parte da opinião pública”

- Charles Darwin, A descendência do homem e a selecção sexual.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Oito pontos para um encontro e diálogo inter-religioso mais plenos e para uma cidadania mais esclarecida e activa


O mundo, como expressa o título do livro de Fritjof Capra, chegou a um Ponto de Mutação. A mudança profunda do paradigma globalizado que tem presidido ao nosso pensamento e comportamento, a nível pessoal e institucional, e que é baseado no antropocentrismo, no egocentrismo e na visão dos seres vivos como entidades separadas, já não é hoje somente uma possibilidade que dependa das nossas opções. A mudança está aí como uma necessidade decorrente do esgotamento e da crise desse mesmo paradigma, que a nível mundial mostra resultados cada vez mais contraditórios das aspirações com que foi implementado e da sua sustentabilidade sócio-económica e ecológica a curto prazo.

A mutação que se processa no mundo reclama naturalmente novas consciências espirituais e religiosas e novos líderes que sejam capazes de ler os sinais dos tempos, viver em sintonia com o fluxo criador da vida e inspirar a mudança que urge, sendo exemplos e despertando cada vez mais consciências do sono espiritual, mental e institucional em que tendem a enclausurar-se. Novas consciências e líderes surgem e surgirão, em todos os domínios, com a característica dos novos tempos: sem confundir os planos da acção humana – espiritual, cultural, social, económica, política, etc. - , serem ao mesmo tempo capazes de os integrar numa visão sistémica e global, mais afim à natureza profunda das coisas do que às abstracções separativas da razão conceptual humana, tão dominante, em parceria com a razão calculadora e quantitativa, no ciclo civilizacional que finda, como expressão também de uma hipertrofiada masculinidade da mente divorciada do seu natural complemento na feminilidade dos afectos e da sensibilidade.

Abre-se assim um enorme desafio para todas as consciências e líderes espirituais e religiosos do nosso tempo, bem como para todos os outros. Eis o que, numa proposta transversal a todas as tradições espirituais e religiosas, me parecem ser os pontos fundamentais desse desafio, no que respeita a um encontro e diálogo inter-religiosos mais plenos e a uma cidadania mais esclarecida e activa, por parte das comunidades espirituais e religiosas.

1 – Compreender e experimentar que o divino, o absoluto ou realidade última para que tende cada identidade e comunidade religiosa é igualmente transcendente a todas, como o seu fundo comum, não sendo posse exclusiva ou privilegiada de nenhuma delas.

2 – Compreender e experimentar que esse mesmo divino, absoluto ou realidade última transcende inequivocamente todas as formas de representação (imagens, palavras, conceitos, acções físicas) e portanto todas as doutrinas teológico-filosóficas e práticas litúrgicas que o visem, não podendo reduzir-se a qualquer dogma ou ritual, sob risco de se cair na idolatria, trocando-o pelo endeusamento daquilo que a seu respeito o ser humano imagina, concebe, diz e faz.

3 – Compreender e experimentar que daí decorre haver muitas vias e experiências que podem disponibilizar os seres humanos para acederem a esse divino, absoluto ou realidade última, não apenas as religiosas ou mesmo espirituais, mas também outras (de natureza ética, estética, social, política, etc.), incluindo as de quem se veja como ateu ou agnóstico.

4 – Compreender a partir daí a centralidade e urgência do encontro e do diálogo interculturais e inter-religiosos, mas abrindo estes a um encontro e diálogo mais amplos com agnósticos, ateus e todos aqueles que não se revirem em nenhuma destas etiquetas. Compreender que todos podem aprender com todos e que em cada via e comunidade religiosa tanto mais se progredirá no caminho para o divino, absoluto ou realidade última quanto mais o viajante se abrir à compreensão e ao respeito de outras vias, caminhos e modos de caminhar, religiosos ou não, para o mesmo destino. Compreender também que toda a forma de encontro e de diálogo intercultural e inter-religioso se deve fundar em algo de mais profundo e radical, o silêncio transcultural e trans-religioso, do qual pode surgir a escuta atenta do outro - não como estranho ou alheio, mas como irmão - e a palavra meditada e verdadeira. Compreender que o mais importante da religião é a espiritualidade, transversal a crentes e não-crentes, e que a espiritualidade – ou seja, a expansão fraterna da consciência - reside no âmago de toda a experiência humana, não só naquelas rotuladas como “religiosas” ou “espirituais”.

5 – Compreender e experimentar que o divino, o absoluto ou a realidade última se manifesta igualmente, embora de diverso e irrepetível modo, em todos os seres e coisas, estando integralmente presente em cada um e na totalidade dos seres e fenómenos do unimultiverso. Compreender que a esta luz todos os seres e fenómenos são sagrados, sendo poderosas e preciosas epifanias da natureza primordial de tudo, e que todas as hierarquias tradicionalmente concebidas entre os seres são sempre relativas a pressupostos, perspectivas e critérios humanos e não inerentes ao mundo visto a partir desse divino, absoluto ou realidade última, como acontece nas mais profundas experiências espirituais, por vezes designadas como “místicas”. Compreender que todos os seres estão assim interligados no seio do divino, absoluto ou realidade última, que todos são próximos, íntimos e inseparáveis e que todos possuem um valor intrínseco e não meramente instrumental. Compreender e experimentar que tudo quanto existe é a própria expressão gloriosa do absoluto ou realidade última, que o unimultiverso é sagrado e que o desencantamento do mundo nunca se deu, sendo apenas o desencantamento da mente e da subjectividade que transitoriamente perdeu a capacidade de percepcionar e sentir a abissal e íntima profundidade de todos e de cada um dos seres e fenómenos.

6 – Compreender que a partir daí não há nenhuma via para o divino, absoluto ou realidade última que não exija uma ética global, do respeito, reverência e cuidado integrais por todas as formas de vida, humanas e não-humanas, bem como pelos ecossistemas e pela natureza dos quais todas essas vidas dependem e que são igualmente manifestações plenas e exuberantes desse divino, absoluto ou realidade última.

7 – Compreender que toda a via para o divino, absoluto ou realidade última é incompatível com a cumplicidade, alheamento, indiferença ou desconsideração a respeito da discriminação, opressão e exploração a que sejam sujeitos quaisquer seres, enquanto manifestações e ícones vivos desse divino, absoluto ou realidade última. Compreender e praticar a necessidade de que a espiritualidade e a religião se exerçam na denúncia e no combate não-violento contra todas as formas dessa discriminação, opressão e exploração: religiosa, cultural, étnica, sexual, especista, social, económica e política. As identidades e comunidades espirituais e religiosas devem unir a sabedoria, o amor e a compaixão, a contemplação e a acção, as quais não se podem desenvolver isoladamente, promovendo novas formas de intervenção e acção no mundo, fundadas na descoberta da paz interior, da calma e da clareza mentais e espirituais mediante as práticas contemplativas e meditativas. Os líderes e as comunidades espirituais e religiosas devem convergir e unir-se para este fim, criando também plataformas de reflexão e acção convergentes com grupos e movimentos laicos da sociedade civil no sentido da transformação urgente que o novo ciclo cultural e civilizacional de todos pede.

8 – Compreender que as consciências e os líderes espirituais e religiosos devem ser sempre os primeiros exemplos da mudança que querem ver no mundo, mantendo um espírito aberto, fraterno, altruísta e desinteressado, sem apego à riqueza material, ao poder, à fama e ao prestígio. Compreender que o verdadeiro líder é aquele que se apaga no divino, absoluto ou realidade última e convida todos a fazerem o mesmo, descobrindo que a verdadeira liderança é em todos a do espírito divino ou da consciência desperta.

Estou convicto de que a simples ponderação e discussão destes pontos, ou de alguns deles, permitirá dar passos substanciais para um encontro e diálogo inter-religioso mais plenos e para uma cidadania mais esclarecida e activa por parte das comunidades espirituais e religiosas.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

"A cultura portuguesa é uma cultura de fronteira"

"(...) não existe uma cultura portuguesa, existe antes uma forma cultural portuguesa: a fronteira, o estar na fronteira. (...) A nossa fronteira não é "frontier", é "border". A cultura portuguesa é uma cultura de fronteira, não porque para além de nós se conceba o vazio, uma terra de ninguém, mas porque de algum modo o vazio está do lado de cá, do nosso lado. E é por isso que no nosso trajecto histórico-cultural da modernidade fomos tanto o Europeu como o selvagem, tanto o colonizador como o emigrante"

- Boaventura de Sousa Santos, Pela Mão de Alice. O social e o político na pós-modernidade, 2013, p.158.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A realidade é real?

Alguém que visse o nosso corpo através de um microscópio gigante e poderosíssimo o que veria? Decerto veria muito mais espaço insubstancial do que a aparente solidez da chamada "matéria" e nada veria da forma que tão real julgamos. Quem verá correctamente? O que temos por tão real, a começar pelo que chamamos o "nosso corpo",  é verdadeiramente real ou apenas a construção de uma percepção condicionada pelos actuais limites da nossa mente e dos nossos sentidos? E não se aplica o mesmo a toda a chamada "realidade" à nossa volta? Esta "realidade" das coisas, das pessoas e dos acontecimentos em cuja verdadeira existência tão irreflectidamente cremos e pela qual tanto sofremos, por apego e aversão...

domingo, 17 de novembro de 2013

como nuvens

como nuvens
miríades de fenómenos 
formam-se, transformam-se e dissipam-se no espaço

alguns pensam-se seres
mas nenhum perdura

O único tesouro é aquele do qual depende que algo se considere ou não como um tesouro

O único tesouro é aquele do qual depende que algo se considere ou não como um tesouro. É aquele que a tudo pode prezar ou desprezar. E esse nada nem ninguém nos pode tirar. A não ser estar inconsciente de si mesmo.

Sabes qual é? É o que te permite compreender isto. É o que és. Não tem forma, substância, cor ou volume. Também não tem nome, mas convencionalmente podemos chamar-lhe mente, cuja natureza profunda é ser consciente, feliz, amorosa e compassiva.  

A natureza primordial da mente é o único tesouro. Mas, obscurecida pela ignorância, quase sempre dá valor a tudo menos a si mesma. Infinita como o espaço que a tudo contém, vê-se como um ponto isolado ao qual tudo falta. Então a mente mente e torna-se demente. E sofre como uma danada, escrava do apego e da aversão, do medo e da expectativa, do egocentrismo, da possessividade, do orgulho, do ciúme, da avidez, do ódio e do torpor. Enquanto não despertar e reconhecer a sua liberdade e plenitude inatas.

Despertemos pois. É o melhor contributo para o bem de tudo e de todos. Uma consciência desperta, feliz e solidária é o principal fundamento de uma sociedade e um mundo melhores. 

sábado, 16 de novembro de 2013

"O ser humano é um anão de si mesmo"

"O ser humano é um anão de si mesmo, pois foi outrora repleto do espírito da natureza mas encolheu do que era e podia ser"

- Emerson

"Mas o que é isso que se senta no meu coração"

"Mas o que é isso que se senta no meu coração,
Que respira tão serenamente e sem pulmões -
Que está aqui, aqui neste mundo, e todavia não está?"

- Mary Oliver

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A verdadeira política radica no silêncio

Precisamos de silêncio nas nossas mentes, corações e vidas. Silêncio exterior e interior. Silêncio para ver, escutar e sentir, a nós e aos outros, a todos os seres vivos, ao mundo.

Silêncio para não manipularmos e não sermos manipulados. Pela conversa fiada, pela comunicação social, pela publicidade, pela propaganda religiosa ou política. 

A política actual degradou-se em retórica, marketing e publicidade, mas a verdadeira política, a da consciência, radica no silêncio. No silêncio da escuta e da reflexão serena, acima do turbilhão das emoções e da acção precipitada. A verdadeira política reside na capacidade de escutar as ideias dos outros, sobretudo dos adversários, e ter a humildade de reconhecer que podem ser melhores do que as nossas e mais conducentes ao bem comum. A verdadeira política não visa vencer, convencer ou converter. Visa despertar a mente e o coração para ver e sentir o que é o bem de todos os seres vivos e da Terra e agir em conformidade. Sem violência. Com um bom coração, amoroso e compassivo para tudo e todos.

Todos somos chamados a esta política. Há que libertá-la dos profissionais retóricos que jamais escutam e nunca se calam.

A Grande Política é a da consciência

A Grande Política é a da consciência. A mais eficaz acção política é aquela que transforme o que os humanos pensam, sentem e desejam 24 horas por dia, acordados ou a dormir. A Grande Política é a do despertar (ou adormecer) de consciências. Pretender mudar o mundo de outro modo, sem que a base de toda a acção seja a mudança das mentes, é estar a dormir, a sonhar e a delirar, por mais acordado e lúcido que alguém se julgue. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

"Pois os poetas são os mensageiros do nada / E toda a língua é estrangeira"

"0 poema fala-nos por um breve instante
Depois, vindo do secreto, ao silêncio retorna

Pois os poetas são os mensageiros do nada
E toda a língua é estrangeira"

- Robert Bréchon, Méditations Métapoétiques 

"(...) toda a língua é estrangeira"

- Robert Bréchon, "Méditations Métapoétiques"

É banal que a flecha atinja o alvo. Raro é que o alvo atinja a flecha. Então desaparece o arqueiro. 

É banal que a flecha atinja o alvo. Raro é que o alvo atinja a flecha. Então desperta o arqueiro. 

Um dia olhas-te ao espelho, a cara parte-se e o mundo acaba.

Uma das maiores e menos lamentadas perdas da humanidade é a da capacidade de espanto, admiração e maravilhamento.


Uma das maiores e menos lamentadas perdas da humanidade é a da capacidade de espanto, admiração e maravilhamento. De gratidão também. Sem isso, resta o tédio da vida e a sensação absurda de que tudo e todos nos devem alguma coisa. Sem isso, resta a tristeza.

"Se não fosse o hábito uma árvore matava-me"



"Se não fosse o hábito uma árvore matava-me. Não posso olhar o céu sem terror, e tenho de fechar todas as portas para voltar à vida comezinha"

- Raul Brandão, Húmus.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A descoberta e a urgência da meditação


A descoberta da meditação pelos ocidentais – enquanto treino da mente para manter uma atenção calma, clara e contínua, com profundos benefícios psicossomáticos, além do desenvolvimento cognitivo-afectivo - é um fenómeno histórico-cultural e civilizacional dos mais relevantes no final do século XX e no início do século XXI. A par da difusão da prática meditativa na população e das várias experiências de sucesso em escolas, empresas, prisões e hospitais, verifica-se um crescente interesse da comunidade científica pela meditação enquanto fonte de conhecimento acerca da relação mente-cérebro e das possibilidades da consciência, como mostram as experiências realizadas no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e noutros lugares, bem como os encontros Mind and Life, promovidos desde 1987 pelo Mind and Life Institute e onde investigadores de vanguarda, particularmente na área das neurociências, têm dialogado com o Dalai Lama e outros representantes de várias tradições.

Numa dessas experiências, juntou-se um grupo de praticantes de meditação no budismo tibetano, com 15 a 40 anos de prática, e um grupo de controlo de estudantes voluntários, com uma semana apenas de prática. Escolheram-se quatro tipos de meditação: 1 – o amor e a compaixão universais e imparciais; 2 – a atenção focada num único objecto, de modo claro, calmo e estável, sem torpor ou agitação mental; 3 – a presença aberta, em que a mente está consciente e atenta, mas sem se focar em nenhum objecto particular; 4 – a visualização de imagens mentais. Enquanto alternavam repetidas vezes períodos neutrais de trinta segundos com períodos de noventa segundos em cada um destes estados meditativos, os praticantes foram submetidos a electro-encefalogramas, que permitem captar alterações na actividade cerebral em milésimos de segundos, e a imagens de ressonância magnética funcional, que localizam com rigor a actividade cerebral. 

Os resultados mostraram espectaculares diferenças entre os praticantes experientes e os noviços, que provam a plasticidade do cérebro e a possibilidade de o transformar e desenvolver mediante a prática regular da meditação. Por exemplo, ao meditar sobre o amor e a compaixão houve um aumento da actividade cerebral de alta-frequência, as chamadas “ondas gama”, “de um tipo nunca antes relatado na literatura científica”, segundo o Professor Richard Davidson. A actividade cerebral concentrou-se também no córtex pré-frontal esquerdo, a sede de emoções positivas, geradoras de bem-estar, como alegria, entusiasmo e altruísmo. Constatou-se também, nos praticantes experientes, a capacidade de regular voluntariamente a actividade mental, concentrando-se exclusivamente numa tarefa sem distracções; a identificação de emoções em rostos que aparecem num ecrã durante um quinto de segundo, sinal de um superior poder de empatia; e a inédita e espantosa neutralização do reflexo do susto, mesmo perante o disparo de uma arma junto do ouvido: uma vez que esse reflexo depende da predisposição para o medo, a raiva e a repugnância, os resultados sugerem “um nível de serenidade emocional impressionante”.

Não admira que o Dalai Lama tenha aberto, em 2005, os trabalhos do Neuroscience, o mais prestigiado congresso de neurocientistas do mundo, em Washington. E que já se fale da meditação como alternativa ao Prozac. Segundo declarações recentes do biólogo Eric Lander, membro do Projecto Genoma Humano: "Não é inconcebível que, dentro de 20 anos, as autoridades americanas de saúde recomendem 60 minutos de exercício mental cinco vezes por semana". A meditação faz hoje parte dos cuidados de saúde e hospitalares, bem como das actividades escolares e empresariais em muitos lugares do mundo, integrando o horário de trabalho de mais de um quarto das maiores empresas norte-americanas.

Há por outro lado no Ocidente a ânsia de uma ética e espiritualidade prática alternativa ao materialismo e niilismo contemporâneos e eficaz no lidar com o sofrimento, os conflitos internos e o sentimento do sem sentido da existência. Sinal dessa busca espiritual é a corrida a livros de autocura, desenvolvimento pessoal e esoterismo, onde, a par de uma minoria de obras credíveis, o público se expõe a todos os riscos da exploração comercial pela nova indústria dos sucedâneos das tradições espirituais autênticas, muitas vezes misturados nos estéreis ou já perigosos cocktails “espirituais” New Age (sem prejuízo das boas intenções que sob este rótulo se conjugam). 

Esta situação torna ainda mais urgente redescobrir a profunda experiência meditativa, veiculada pelas tradições autênticas da humanidade e por aqueles que as renovam mediante uma verdadeira inspiração interior, traduzida numa vida exemplar, desprendida do engodo pelo poder, a fama e a riqueza, critério seguro de autenticidade. Por outro lado, o estado actual da civilização, o agravamento da relação destrutiva da humanidade com a natureza, os seres vivos e consigo mesma, tornam também urgente redescobrir a experiência meditativa. Estamos convictos que a meditação, não religiosa, mas secular, é hoje chamada a estar no centro de um novo paradigma mental, ético e cultural-civilizacional, e de uma nova organização social, política e económica, em que se assuma que a natureza e os seres sencientes, humanos e não-humanos, são inseparáveis de nós, possuem um valor intrínseco e não são meros objectos e recursos a explorar para a (impossível) satisfação da nossa avidez. É que a ausência dessa visão não-dual e holística, que em boa parte reflecte a ausência da experiência meditativa nos decisores mais responsáveis pelo destino do mundo, arrisca-se a precipitar-nos num imenso colapso ecológico-social.



Livres como a liberdade é livre de o ser


Queremos libertar-nos de tudo menos da ideia de não sermos fundamentalmente livres. E portanto responsáveis por tudo o que pensamos, dizemos e fazemos ou não. Responsáveis pelo modo como percepcionamos e reagimos a tudo. Responsáveis pelo que vemos ou não como real. Responsáveis. Pois nada nos é exterior. Só a mente a si mesma se fere ou acarinha, se adormece ou desperta, se oprime ou liberta. Os outros são inseparáveis de os vermos como outros. Inseparáveis de nós.

Mas no fundo sem fundo somos até livres de nós e dos outros. Livres de sermos livres. Livres como a liberdade é livre de o ser.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

"A vida é breve, a alma é vasta: / Ter é tardar"


"A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar"

- Fernando Pessoa, "O das Quinas", Mensagem.

"...um novo avatar do mito que encarna a verdadeira vida..."


“Dioniso, o Grande Libertador, patrono do desregramento dos sentidos pregado pelos surrealistas, quebra os laços impostos pela ordem apolínea da personalidade, restituindo-nos o tesouro dos mitos. É nessa terra dos tesouros que o surrealismo vai buscar as significações do valor universal, sistematicamente cilindradas pelo particularismo da consciência reflexiva, assumindo-se como o pesquisador de um novo avatar do mito que encarna a verdadeira vida escamoteada pelas normas de uma atitude lógica-repressiva e acosmística. Não se trata de reabilitar os mitos legados pelo passado, mas de restabelecer as forças que nutriam a consciência mítica, utilizando-as para consumar o parto difícil de um mito moderno que a nossa época exige como única solução possível para as precárias condições de vida que nos oferece”

- António Maria Lisboa, “O mito e o ultimato surrealista a todas as formas de opressão”.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Redescobrir o mistério da bondade

“[Sobre os “heróis” altruístas:] Em vez de tentarmos educadamente criar uma distância entre eles e nós ao mesmo tempo que louvamos as suas acções, não seria preferível redescobrir o potencial altruísta em nós? […]

Não procuremos explicações misteriosas para a bondade nos outros, mas redescubramos antes o mistério da bondade em nós mesmos”

- Mordecai Paldiel, “Is goodness a mistery?”, Jerusalem Post, 8 de Outubro de 1989.

A "banalidade do bem" segundo Matthieu Ricard


“Pôde-se falar da «banalidade do mal» [Hannah Arendt]. Mas poder-se-ia também falar da «banalidade do bem», evocando as mil e uma expressões de solidariedade, de atenção e de compromisso a favor do bem de outrem que balizam as nossas vidas quotidianas e exercem uma influência considerável sobre a qualidade da vida social. Além do mais, aqueles que realizam estes inumeráveis actos de entreajuda e de solicitude dizem em geral que é plenamente “normal” ajudar o seu próximo. Se se justifica evocar esta noção de banalidade, é também por ela ser de algum modo silenciosa: o bem de todos os dias é anónimo; ele não ocupa o centro das atenções dos órgãos de comunicação ao modo de um atentado, de um crime crapuloso ou da libido de um político. E, enfim, se há banalidade é ainda o sinal de que nós somos todos potencialmente capazes de fazer o bem à nossa volta”

- Matthieu Ricard, Plaidoyer pour l’altruisme. La force de la bienveillance, Paris, NiL, 2013, pp.110-111.

Mistério e alarme


“Nem o mistério é tanto o que se nos furta à associação lógica, como o que se nos revela sob a obscura forma de um alarme. Sentir a vida nos limites extremos da sua revelação é percebê-la de dentro para fora, nos recessos profundos de nós próprios, na fulguração imediata: essa é a dimensão do «mistério»”

- Vergílio Ferreira, Do mundo original.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Os benefícios de meditar no amor altruísta segundo o budismo e a neurociência

Uma meditação budista tradicional, metta bhavana, a meditação do amor altruísta, está a ser usada pelos neurocientistas para estudar o efeito deste sentimento sobre a mente, o corpo e o comportamento humanos. Consiste em começar por nós mesmos, visualizando uma luz no coração onde ao inspirar todo o nosso sofrimento se absorve e dissipa, para na expiração a irradiarmos impregnando-nos de luz, paz e felicidade. Alargamos depois a prática a entes queridos que visualizamos diante de nós, inspiramos o seu sofrimento para os libertarmos dele e, ao expirarmos, enviamos-lhes toda a paz, toda a felicidade e todo o bem. Continuamos depois alargando a experiência a conhecidos, a desconhecidos e àqueles que vemos com aversão, até abrangermos todos os seres vivos, humanos e não-humanos, em todo o universo.

Uma experiência recente conduzida por Barbara Fredrickson, com um grupo de pessoas que nunca haviam praticado meditação e que praticaram metta bhavana vinte minutos por dia durante sete semanas, mostrou que ao fim deste tempo, e por comparação com um grupo de controle de pessoas que nada praticaram, os primeiros sentiam mais amor, empenho nas actividades quotidianas, serenidade, alegria e muitas outras emoções positivas. Estes efeitos estenderam-se ao longo do dia e aumentaram à medida que o tempo passava. Por outro lado, verificou-se que este exercício aumenta o tónus vagal (relacionado com a actividade do nervo vago, que liga o cérebro ao coração e a outros órgãos). A investigação constata que pessoas com um tónus vagal elevado se adaptam melhor física e mentalmente a circunstâncias em mutação e são mais aptas a regular os processos fisiológicos internos (açúcar no sangue, resposta às inflamações), tal como as suas emoções, atenção e comportamento. Estão menos sujeitas a crises cardíacas e acidentes vasculares cerebrais, têm o sistema imunitário mais robusto e contraem menos diabetes e vários tipos de câncer.

Perante isto, o psicólogo Paul Ekman propõe que se criem “ginásios do amor altruísta”. A redescoberta da meditação confirma-se como a grande revolução do século XXI, a revolução silenciosa. Vamos praticar?

(Muita informação sobre o assunto no último e excelente livro de Matthieu Ricard, Plaidoyer pour l’altruisme. La force de la bienveillance, Paris, NiL, 2013. Ver também: Barbara Fredrikson, Love 2.0: How Our Supreme Emotion Affects Everything We Feel, Think, Do, and Become, 2013).

O que é um caminho "espiritual"? Para uma desconstrução dos delírios "New Age"

Abundam nos dias de hoje todo o tipo de ideias confusas, fantasistas e delirantes sobre o que é um caminho “espiritual”, vindas sobretudo de quem faz saladas e cocktails espirituais, esotéricos ou místicos com elementos díspares das várias tradições da humanidade, descontextualizados e combinados por sua conta e risco (e risco de outros) e sem a mínima orientação de mestres, professores ou instrutores credíveis. São essas saladas e cocktails que todo o tipo de self-made gurus vende no grande bazar do nosso tempo, onde a mercantilização também chegou às coisas do espírito e onde, sob o rótulo da New Age e de uma suposta evolução colectiva caída do céu, se pretendem legitimar todos os delírios.

Há todavia indicadores básicos e seguros, atestados pelas grandes tradições da humanidade e baseados na experiência milenar de praticantes evoluídos, de que se segue um caminho “espiritual”, ou seja, não religioso, mas de emancipação e desenvolvimento da consciência para além da ficção do ego e das ficções do ego. Um deles, presente na via do Buda, é o de nos estarmos progressivamente a emancipar das oito preocupações mundanas: apego ao ganho e aversão à perda, apego ao prazer e aversão à dor, apego ao elogio e aversão à censura, apego à fama e aversão ao desprezo. Isto, a par do crescimento de um amor e compaixão incondicionais por todos os seres, humanos e não-humanos, incluindo adversários e inimigos, é um sinal seguro de que, nestes tempos confusos de tantos falsos profetas, não nos estamos a auto-enganar nem a enganar os outros.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Lançamento de "É a Hora! A mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa", 28 de Novembro, 18.30, na Bertrand Picoas


Convido-vos para o lançamento do meu último livro, que será apresentado pelo romancista e ensaísta Miguel Real. Trata-se de uma interpretação e comentário, poema a poema, da "Mensagem" de Fernando Pessoa, que oferece uma leitura universalista da obra pessoana, destinada a todas as consciências, não só portuguesas e lusófonas, que aspirem a despertar e a integrar uma nova comunidade trans-nacional, trans-cultural e trans-religiosa, criadora de um novo ciclo de civilização, segundo um paradigma holístico e integral, que vise o bem de todos os seres.

A obra é editada pela Temas e Debates / Círculo de Leitores.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ecologia e desenvolvimento da consciência interior


"(…) a única agenda realmente importante para os verdadeiros ecologistas em qualquer parte é a criação, a evolução e o desenvolvimento da própria consciência interior. Os principais problemas de Gaia não são a industrialização, a diminuição do azono, a sobre-população e o esgotamento dos recursos. O principal problema de Gaia é a falta de entendimento mútuo e comum acordo na noosfera sobre como proceder em relação a essas dificuldades. A maioria dos eco-filósofos focam milhares de outras coisas que precisam ser feitas e ignoram totalmente o maior e principal problema: como levar as pessoas a ver os problemas e a chegar a acordo sobre a forma de os resolver. E a única maneira de fazer isso é através da evolução da consciência de modos egocêntricos de pensamento para modos sociocêntricos e globocêntricos."

- Ken Wilber, A Brief History of Everything