“Sou feito da inteira evolução da Terra; sou um microcosmo do macrocosmo. Nada há no universo que não esteja em mim. O inteiro universo está encapsulado em mim, como uma árvore numa semente. Nada há ali fora no universo que não esteja aqui, em mim. Terra, ar, fogo, água, tempo, espaço, luz, história, evolução e consciência – tudo está em mim. No primeiro instante do Big Bang eu estava lá, por isso trago em mim a inteira evolução da Terra. Também trago em mim os biliões de anos de evolução por vir. Sou o passado e o futuro. A nossa identidade não pode ser definida tão estreitamente como ao afirmar que sou inglês, indiano, cristão, muçulmano, hindu, budista, médico ou advogado. Estas identidades rajásicas são secundárias, de conveniência. A nossa identidade verdadeira ou sáttvica é cósmica, universal. Quando me torno consciente desta identidade primordial, sáttvica, posso ver então o meu verdadeiro lugar no universo e cada uma das minhas acções torna-se uma acção sáttvica, uma acção espiritual”

- Satish Kumar, Spiritual Compass, The Three Qualities of Life, Foxhole, Green Books, 2007, p.77.

“Um ser humano é parte do todo por nós chamado “universo”, uma parte limitada no tempo e no espaço. Nós experimentamo-nos, aos nossos pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto – uma espécie de ilusão de óptica da nossa consciência. Esta ilusão é uma espécie de prisão para nós, restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e ao afecto por algumas pessoas que nos são mais próximas. A nossa tarefa deve ser a de nos libertarmos desta prisão ampliando o nosso círculo de compreensão e de compaixão de modo a que abranja todas as criaturas vivas e o todo da Natureza na sua beleza”

- Einstein

“Na verdade, não estou seguro de que existo. Sou todos os escritores que li, todas as pessoas que encontrei, todas as mulheres que amei, todas as cidades que visitei”

- Jorge Luis Borges

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Depoimento de Matthieu Ricard de apoio à Carta pela Compaixão Universal lançada pelo Círculo do Entre-Ser

Mãe Terra

Todos os nossos problemas e o risco de um colapso ecológico-social sem precedentes radicam na nossa desconexão com a Terra e com a comunidade dos seres vivos, com a biosfera e com o unimultiverso. Uma desconexão irreal, pois o ser humano não existe em si e por si, desintegrado dos fluxos de matéria, energia e consciência que constituem tudo quanto existe. Somos feitos dos mesmos elementos que constituem todos os seres e coisas, mas a ficção da separação, com o medo, a insegurança, a avidez e a hostilidade daí decorrentes, determinou uma evolução social e individual em que, sobretudo no actual paradigma de civilização globalizado, nos vemos como os donos do planeta com direito a explorar os seus recursos naturais e a comunidade dos seres vivos a nosso bel-prazer, para satisfazer não só as nossas necessidades, mas sobretudo os nossos desejos e caprichos mais fúteis. Da crença na existência independente da humanidade passou-se para a atribuição de valor intrínseco apenas ao ser humano, considerando-se a natureza e os demais seres vivos como dotados de mero valor instrumental, dependente da sua utilidade para a realização das finalidades humanas. Isso traduz-se hoje na nova religião laica do crescimento económico a todo o custo, que ignora a sua impossibilidade num planeta com recursos naturais finitos e tem dominado as políticas governamentais de esquerda, centro e direita, conduzindo-nos à poluição, às alterações climáticas e à destruição massiva e acelerada da biodiversidade e dos ecossistemas que relatórios científicos isentos mostram compor um quadro de insustentabilidade e de risco de colapso iminentes, para além do sofrimento causado a incontáveis seres humanos e não-humanos.

Perante isto, mais do que reformas pontuais e isoladas, é urgente ir à raiz do problema e mudar o estado de consciência dominante. Importa promover uma consciência vivida – pelos métodos contemplativos e meditativos e pelo alargamento amoroso e compassivo da noção de “próximo” a tudo o que existe, vive e sente – da inseparabilidade entre a vida humana e as demais formas de vida no seio da nossa Mãe comum, a Terra, da biosfera e do unimultiverso. Só esta profunda mudança espiritual – aliada ao reconhecimento da insustentabilidade do paradigma dominante em termos sociais, económicos e ambientais – pode conduzir a uma mudança estrutural das nossas vidas e das nossas sociedades, bem como a uma reconversão profunda da cultura, da economia e da política, colocando-as ao serviço de uma noção ampla de Bem Comum, já não o de uma única espécie, a humana, mas o de todos os seres vivos, da Terra e da biosfera como um todo inseparável. Daí decorrerá também a mudança jurídica que se impõe, que deve consagrar o valor intrínseco não só do ser humano, mas de todas as formas de vida e da própria Terra, que não podem continuar a ser consideradas mera propriedade que se pode explorar e rentabilizar ilimitadamente. Na verdade, a Mãe Terra não pertence ao ser humano, sendo antes a matriz comum que origina e nutre igualmente todas as vidas que nela surgem de modo interdependente, intimamente ligadas a si e entre elas. Como fundamento dos seus próprios direitos, o ser humano tem o dever de respeitar, proteger e promover a integridade da Terra e de todos os viventes.

Só uma consciência e uma cultura do entre-ser permite reconhecer, respeitar e preservar este cordão umbilical que jamais se pode cortar e que podemos experimentar na própria respiração, pela qual continuamente inspiramos e expiramos e somos inspirados e expirados pelo alento vital que impregna e circula por todos os seres e coisas. O ar e todas as energias, densas e subtis, são como o sangue e o espírito da Terra e da biosfera, pelos quais somos inseparáveis do infinito corpo do unimultiverso e da Vida em todas as suas manifestações. Saibamos respirar e ser respirados e tudo será diferente.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Teremos política?


“Filosofia e política nascem juntas. (...) Quando digo filosofia não me refiro a sistemas, nem a livros, nem a raciocínios escolásticos. Trata-se primeiro e antes de tudo do questionamento da representação instituída do mundo, do questionamento dos ídolos da tribo no horizonte de uma interrogação ilimitada. Quando digo política não falo de eleições municipais nem presidenciais; a política, no verdadeiro sentido do termo, é o questionamento da instituição efectiva da cidade, é a actividade que trata de encarar lucidamente a instituição social como tal”

- Cornelius Castoriadis, “Natureza e valor da igualdade”.

Teremos política? Temos Estado, sociedade, instituições culturais, políticas e económicas, presidente, governo, partidos e eleições, mas teremos realmente política? Temos realmente um questionar autêntico, desinteressado e profundo do sentido de haver Estado, sociedade, instituições, presidente, governo, partidos e eleições? Interrogamo-nos verdadeiramente sobre o sentido, a finalidade e a orientação de tudo isto? Ou limitamo-nos, mesmo quando nos presumimos diferentes e alternativos, a reproduzir a representação instituída do mundo e a venerar antigos e novos ídolos da tribo, na ausência de horizonte de uma completa recusa de os/nos interrogarmos? Paga-se muito caro a recusa da filosofia, porque sem ela tudo se esvazia em acção irreflectida ao serviço de rotinas ou de interesses pouco confessáveis, sobretudo quando disfarçados de idealismo e do serviço de causas nobres.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Após estes dias de consumo febril, somos mais felizes?


Sejamos sinceros. Após estes dias de consumo febril (mesmo em tempo de “crise”), atingimos realmente o nosso objectivo, sermos mais felizes? É evidente que gastámos mais dinheiro, que enriquecemos ainda mais as grandes corporações e que fomos cúmplices do trabalho escravo em muitos pontos do mundo, que poluímos e lançámos mais lixo para o planeta que levará séculos a ser reabsorvido, que chacinámos e devorámos milhões de animais, que contribuímos ainda mais para as alterações climáticas, que degradámos mais ainda o planeta que vamos deixar aos nossos filhos e netos... Mas ao menos, ainda que isso fosse uma justificação, somos hoje mais felizes?

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Retiro de Meditação no Coração da Vida (com Paulo Borges)


Seminário da Torre da Aguilha
Carcavelos
2 a 4 de Janeiro de 2015

A mudança de ano, solar ou lunar, é sempre o fim de um ciclo energético e o início de outro e uma excelente oportunidade para mudar e evoluir. A finalidade deste Retiro é vivenciar plenamente o “Ano novo, Vida nova”, reconhecendo os nossos padrões habituais de confusão, medo, avidez e agressão e deixando de nos identificar com eles, aprendendo modos de transformar a sua energia na experiência da nossa natureza original. Para este fim, será dado um particular destaque ao conhecimento dos cinco padrões energéticos fundamentais que se manifestam na nossa vida e em todas as coisas, conhecidos como as “cinco famílias de Buda”: Buda (espaço), Vajra (clareza), Ratna (riqueza), Padma (paixão) e Karma (acção). Conheceremos as suas manifestações confusas e aprenderemos a transformá-las nas cinco sabedorias que são a sua natureza sã e profunda, como forma de vivermos mais plenamente no Coração da Vida.

Programa:

Dia 2 – 6ª feira

18.00 – 20.00 - Chegada e acomodação.

20.00 – 21.30 – Jantar

21.30 – 22.30 – Introdução ao sentido do Retiro. Ano novo, Vida nova. Retirar-se da confusão, do medo, da avidez e da agressão e experienciar a nossa natureza sagrada e primordial, pelo bem de todos os seres.

Dia 3 – Sábado

07.30 – 09.00 – Introdução à experiência meditativa, introdução à realidade e à liberdade: Aqui-Agora.

09.00 – 10.00 – Pequeno-almoço

10.00 – 13.00 (com intervalo) – Sessões teórico-práticas de meditação sentada e em andamento. Shamatha – Pacificar a mente na atenção plena às sensações físicas, à respiração, ao fluxo das emoções/pensamentos e aos fenómenos externos. RAIN: reconhecer, aceitar, investigar, não se identificar.

13.30 – 14.30 – Almoço

15.30 - 18.30 (com intervalo) – Quem realmente somos? Reconhecer e aprender a lidar com a nossa actual matéria-prima. Introdução aos três tipos de personalidade e às cinco famílias de Buda, os cinco padrões energéticos do nosso potencial de desenvolvimento e despertar.
Sessões teórico-práticas de meditação sentada e em andamento. Shamatha – Pacificar a mente na atenção plena ao estar consciente. Introdução a vipashyana: despertar a mente e ver a natureza impermanente, interdependente e insatisfatória de todos os pensamentos, emoções e preocupações. Contemplar a natureza da consciência, livre de identificações, apego e aversão.

19.30 – 20.30 – Jantar

21.30 – 23.00 – Entrar na Festa do Coração da Vida. Transmutar toda a ilusão, carência e negatividade nas quatro meditações ilimitadas: amor, compaixão, alegria e imparcialidade - a troca ou tonglen. Abandono do falso eu e celebração de um renascimento desperto, amoroso e compassivo com todos os seres e a Terra.

Dia 4 – Domingo

07.30 – 09.00 – Sessão de meditação. Revisão e aprofundamento do dia anterior: Shamatha, vipashyana e tonglen.

09.00 – 10.00 – Pequeno-almoço

10.00 - 13.00 (com intervalo) – Aprofundamento do estudo e reconhecimento das cinco famílias de Buda. Exercícios de transformação das suas manifestações confusas nas cinco sabedorias primordiais.

13.30 – 14.30 – Almoço

15.30 - 18:00 – A visão pura de todos os fenómenos. Meditação com visualização e mantras. Regressar à vida quotidiana com um espírito desperto, criativo, amoroso e compassivo.

O retiro será facilitado por Paulo Borges. Tentando praticar a via do Buda desde 1983, tem orientado desde 1999 workshops, cursos e retiros de introdução teórica e prática ao budismo e à meditação. Professor de Filosofia na Universidade de Lisboa. Cofundador, ex-presidente da União Budista Portuguesa (2002-2014) e actual membro da Direcção. Cofundador e presidente do Círculo do Entre-Ser. Tradutor de textos budistas, como Estágios da Meditação, de Sua Santidade o Dalai Lama (2001), o Livro Tibetano dos Mortos (2006) (com Rui Lopo), A Via do Bodhisattva, de Shantideva (2007), O Caminho da Grande Perfeição, de Patrul Rinpoche (2007) e O que não faz de ti um budista, de Dzongsar Jamyang Khyentse (2009). Entre outras obras é autor de O Budismo e a Natureza da Mente (com Matthieu Ricard e Carlos João Correia, 2005), de Descobrir Buda. Estudos e ensaios sobre a via do Despertar (2010), de Quem é o meu Próximo? Ensaios e textos de intervenção por uma consciência e uma ética globais e um novo paradigma cultural e civilizacional (2014) e de O Coração da Vida. Visão, meditação, transformação integral (2015).

Contribuição: 140 ou 160 euros, consoante a disponibilidade (110 euros: estadia e refeições; 30 ou 50 euros: organização, orientação e actividades do retiro).
10% dos lucros será oferecido a uma associação humanitária, de defesa dos animais ou do ambiente.

Atenção:

- Pode obter informações por telefone (918113021) ou e-mail (pauloaeborges@gmail.com) e é necessário inscrever-se por mail confirmando a inscrição com a transferência de metade do valor em causa até ao dia 29 de Dezembro para o NIB 0010 0000 48372440001 68. Mail para inscrições: retiros@circuloentreser.org
- Convém trazer roupas confortáveis, uma almofada, um tapete e um bloco de notas.
- O evento é aberto a todos e não implica nenhum conhecimento teórico ou prático de meditação.
- As refeições serão vegetarianas.
- Antes de cada refeição será feita uma oferenda dos alimentos para saciar a fome e sede físicas e espirituais no mundo e os primeiros 15m decorrerão em silêncio, para cultivarmos a atenção plena, apreciarmos melhor os sabores dos alimentos e desenvolvermos gratidão por todos aqueles que para eles contribuíram.
- O retiro só se realizará com um mínimo de 10 participantes.

Localização:

Sair da A5 para Carcavelos e voltar à direita, caso venha na direcção Lisboa-Cascais

Inscrições:
retiros@circuloentreser.org

Site do CES:
Página no Facebook: https://www.facebook.com/CirculoEntreSer?ref=ts&fref=ts

Organização: Círculo do Entre-Ser, com o apoio da União Budista Portuguesa

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Fazer da mentalidade partidária uma peça de museu da evolução da consciência

Em Portugal e no mundo há partidos para tudo. Uns estão ao serviço dos mais pobres, outros dos mais ricos. Uns defendem alguns animais, outros defendem a natureza (de modo a que continue a ser explorada pela humanidade). Uns são nacionalistas, outros internacionalistas. Todos querem mudar alguma coisa, desde que tudo fique na mesma. Nenhum quer mudar tudo. Porque nenhum quer mudar integralmente o ser humano, nenhum quer mudar a consciência e a vida, nenhum quer Outra Coisa: um novo Ser Humano e um Novo Mundo. E nenhum quer isso porque nos partidos não há ou escasseiam e são rapidamente trucidadas pessoas que tenham vistas largas e aspirem à plena transformação de si e do mundo, pessoas que visem o despertar integral da consciência e o viver em conformidade. É por isso que estas recusam e fogem das cercas ideológicas e dos rebanhos das quintas partidárias. Aspirar a uma mudança global e estrutural da consciência e da vida é demasiado para a estreiteza e superficialidade dos partidos políticos e das preocupações imediatas das populações de cujos votos dependem para terem o tacho dos deputados e das subvenções a que todos igualmente aspiram. Isso porventura é demasiado para a política, sempre que se reduz à “arte do possível” para os que não visam o impossível e assim se converte na arte da mediocridade. Porém “só há homem, quando se faz o impossível”, como disse Agostinho da Silva. E acrescentou: “Partido é uma parte: sê inteiro”. Despertar para o desafio de ser inteiro é dar o primeiro passo para realizar o impossível e fazer da mentalidade partidária – na política, na religião ou onde quer que seja – uma peça de museu da evolução da consciência.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A essência do nosso tempo é a ejaculação precoce. Felizes os raros que ainda cultivam a arte do silêncio, do pasmo e da lentidão.


Nesta sociedade de obsessão narcisista com a visibilidade, a eficácia e o imediato, há cada vez menos lugar para o Eros, para a lenta e morosa relação com o íntimo, o secreto e o profundo, para a aspiração de ir além da forma, das imagens e das palavras e acariciar os luxuriantes e silenciosos recônditos do mundo, para os olhos e asas bem abertos na demanda e no espanto ante esse não sei quê palpitante em tudo o que jamais acontece. A essência do nosso tempo é a prostituição e a pornografia, não tanto a das ruas e bordéis ou dos filmes, vídeos e revistas, mas a da pressa e incontinência publicitária, política, tecnológica e mediática, a deste formigueiro esquizofrénico de subgente acotovelando-se por aparecer, ser visível, tornar-se conhecida, ter opinião, vender-se, consumir e ser consumida, inscrever o seu nome de nada nos fogos fátuos das notícias, dos palcos e das tribunas, bolas de sabão e castelos de areia logo desfeitos pelos ventos e marés da vida. A essência do nosso tempo é a ejaculação precoce. Felizes os raros que ainda cultivam a arte do silêncio, do pasmo e da lentidão.

Imagem: Eros e Psique, de Antonio Canova

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

1492 foi uma data trágica para a humanidade

O ano de 1492 foi uma data trágica para a humanidade: os Judeus e os Árabes foram expulsos de Espanha (D. Manuel expulsou os Judeus de Portugal em 1496-1497); Colombo descobriu a América e iniciou a era colonial que destruiu inúmeras culturas e globalizou o paradigma civilizacional europeu que hoje ameaça o planeta com um colapso ecológico-social sem precedentes; a civilização partilhada por Judeus, Cristãos e Muçulmanos começou a fraccionar-se em esferas cada vez mais separadas, com todas as consequências trágicas ainda hoje bem presentes. Há erros que têm séculos ou milénios de consequências. O que os indianos chamam “karma”, os efeitos proliferantes de uma intenção-acção inicial. E hoje continuamos a cometê-los...

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A meditação como descoberta da natureza profunda de si e de tudo


"Pode-se dizer que, no seu sentido mais profundo - a que conduzem, como veremos, os métodos de concentração e calma mental - , a meditação ou contemplação consiste numa experiência de reconhecimento e fruição do que verdadeiramente se é, aqui e agora, sem a interferência de interpretações, avaliações e desejos subjectivos e de preocupações com o passado, o futuro e mesmo com o presente. Libertando a mente de tudo isso, a meditação ou contemplação manifesta-se como a experiência natural de integração na natureza profunda, perfeita e primordial de tudo o que existe, em interconexão com todas as suas manifestações, todos os fenómenos e todos os seres. A experiência meditativa ou contemplativa contrasta assim com uma experiência do mundo centrada na aparente separação do sujeito ou do “eu”, na qual tudo é percepcionado, interpretado e avaliado segundo os seus medos, expectativas, desejos e aversões, as suas supostas necessidades, os seus gostos, desgostos e apetites de ter, fazer e desfazer. É nesse sentido que tradicionalmente, segundo a chamada filosofia perene, a meditação ou contemplação se considera a suprema e mais eficaz forma de acção, por promover a mais profunda e radical de todas as transformações, a da consciência do sujeito agente, descentrando-o das suas necessidades fictícias e apetites egocêntricos, levando-o ao (re)conhecimento de si como inseparável da ou idêntico à natureza profunda e plena do real e diminuindo e abolindo assim a experiência de separação dos demais seres e do mundo como um todo. Neste processo reintegra-se uma experiência primordial e original e uma consciência não-dualista, integral e holística, uma presença aberta ilimitadamente consciente e bondosa, desvela-se à medida que se dissipa o véu da ilusória percepção de uma cisão, distância e desconexão entre cada um de nós e a natureza profunda de todos os seres e coisas, entre eu e outro, nós e eles, ser humano e mundo, sujeito e objecto. O aprofundamento desta experiência mostra-a como a plena realização de si – no sentido de abandonarmos todas as fantasias acerca de quem somos na tomada de consciência da nossa realidade profunda – e o fim supremo da existência humana , aquilo a que na verdade inconscientemente aspiramos em todos os objectos do desejo (e daí nenhum o saciar)"

~ Paulo Borges, O Coração da Vida. Visão, meditação, transformação integral, pp.21-22.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Compaixão Activa: Uma Urgência - 9 de Dezembro, 18h - Anf. III - Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


Compaixão Activa: uma urgência

9 de Dezembro, 18h
Anfiteatro III
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

As expectativas dos séculos XIX e XX de progresso ilimitado da humanidade para uma sociedade perfeita deram lugar à evidência de que a evolução científico-tecnológica e o crescimento económico não foram acompanhados por uma evolução ética e da consciência, originando um mundo onde a violência, o sofrimento e a destruição atingem proporções inéditas: opressão e exploração sócio-económica com o aumento do fosso entre ricos e pobres, novas guerras e violações constantes dos direitos humanos, reacender dos nacionalismos e da xenofobia, escravatura e massacre industrial dos animais para alimentação e vestuário (além de outras formas de sofrimento que lhes são infligidas), poluição, destruição acelerada da biodiversidade e alterações climáticas, entre muitos outros sinais de uma civilização em crise e ameaça de colapso.

Perante isto, sente-se cada vez mais a urgência de uma mudança global das consciências, sem a qual as reformas jurídicas, políticas e económicas se revelam sempre instáveis e superficiais. E para essa mudança parece inequívoca a necessidade de desenvolver o potencial afectivo do ser humano, promovendo o alargamento da empatia, do amor e da compaixão para além do círculo das relações mais imediatas. Numa cultura e numa civilização que têm promovido unilateralmente o desenvolvimento do intelecto, surge o desafio de o complementar com a abertura compassiva do coração, repensando a categoria bíblica de “próximo” e vendo se não é extensível a todo o outro, animais humanos e não-humanos e natureza como um todo. As neurociências contemporâneas têm descoberto os imensos benefícios do cultivo da compaixão para o desenvolvimento humano e cerebral e a compaixão consciente, não-violenta e activa parece ser a motivação fundamental de todo o activismo mais esclarecido no domínio dos direitos humanos, dos animais e da natureza. Daí a razão deste Colóquio, onde se apresentará a Carta pela Compaixão Universal, que conta com o apoio de várias personalidades nacionais e internacionais (Dalai Lama, Satish Kumar, Matthieu Ricard, Joyce d'Silva, Francisco Varatojo, Manuela Gonzaga, Miguel Real, Teresa Nogueira). Podemos lê-la e subscrevê-la aqui: http://charterforuniversalcompassion.org/pt/

Oradores:

António Carvalho – Transformação social e subjectividade: o caso das práticas meditativas

Maria José Varandas – Para além da centralidade do humano: a simbiose benevolente

Rita Silva - Activismo e o exercício da auto-compaixão: uma questão de sobrevivência

Maria Teresa Nogueira - Os Direitos Humanos como via activa para a Compaixão

Paulo Borges – Quem é o meu Próximo? Espiritualidade, compaixão e acção integral. Apresentação da Carta pela Compaixão Universal

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António Carvalho - Licenciado em Filosofia (2006) e mestre em Sociologia (2009) pela Universidade de Coimbra. Em 2014 concluiu doutoramento em Sociologia na Universidade de Exeter com uma dissertação sobre as dimensões ontológicas e sociais de duas práticas meditativas, Vipassana e Mindfulness. É investigador associado do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e membro do Círculo do Entre-Ser.

Maria José Varandas - Mestre em Filosofia, na área de Filosofia da Natureza e do Ambiente, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Membro do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, Grupo Acção e Valores. Presidente da Sociedade de Ética Ambiental (SEA). Representante em Portugal da Environmental Society for Environmental Ethics (ISEE). Autora de uma pluralidade de artigos e capítulos sobre ética ambiental em revistas e obras da especialidade; de fascículos na colecção Breviário de Ética Ambiental, nomeadamente: Valor do Mundo Natural; Vida. Propriedade do organismo ou do planeta?; Gaia. Para uma aliança com a Terra; coordenadora com Cristina Beckert da antologia Éticas e Políticas Ambientais; autora do livro Ambiente uma questão de Ética; conferencista em diversas instituições sobre o tema Ambiente. Organizadora e co-organizadora de seminários sobre a temática ambiental.

Rita Silva – Activista pelos direitos dos animais e Presidente da ONG ANIMAL. Trabalha activamente na Coligação Europeia para a Abolição da Experimentação em Animais, foi uma das fundadoras da Rede Mundial para a Abolição da Tauromaquia, grupo com o qual continua a colaborar. Colabora ainda com a Cruelty-Free International/BUAV como Coordenadora Ibérica.
Ao longo da última década tem investido na sua formação, tendo cursado “gestão de abrigos para animais” com a World Society for the Protection of Animals e “gestão e manutenção de canis” com a Battersea Dogs and Cats Home e a Mayhew Animal Home. Frequenta presentemente um curso de Treino, Avaliação e Resolução de Problemas Comportamentais de Cães.

Maria Teresa Nogueira - Membro da Amnistia Internacional desde 1987. Foi Presidente da Direcção da AI-Portugal (2000-2003), Presidente do Conselho Fiscal (1994-1998) e vogal de várias Direcções. Exerceu trabalho de coordenação sobre a adesão de Portugal ao Tribunal Penal Internacional (2001-2002), contra a Pena de Morte (1989), contra a transferência de material militar, de segurança e de “know how” militar para países onde possam ser usados para violações dos direitos humanos (2005 e 2006). Coordenou em Portugal a Rede dos Países da Europa Ocidental (WERAN) e a Rede da China e Territórios sob sua Administração, incluindo Macau (CHIRAN, 1990-1995). Actual coordenadora na Amnistia Internacional do Cogrupo da China que trabalha sobre a violação dos Direitos Humanos na China, Tibete, Xinjiang e Mongólia.

Paulo Borges - Professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador do Centro de Filosofia da mesma Universidade. Ex-presidente e membro da Direcção da Associação Agostinho da Silva. Sócio-fundador, ex-presidente da União Budista Portuguesa (de 2002 a 2014) e actual membro da Direcção. Vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral da Sociedade de Ética Ambiental. Cofundador e ex-presidente do PAN (2011-2014). Cofundador e presidente do Círculo do Entre-Ser, associação filosófica e ética. Autor e organizador de 40 livros de ensaio filosófico, espiritualidade, poesia, ficção e teatro, sendo os mais recentes: Quem é o meu Próximo? Ensaios e textos de intervenção por uma consciência e uma ética globais e um novo paradigma cultural e civilizacional (2014); O Coração da Vida. Visão, meditação, acção integral (Lisboa, Mahatma, 2015).

Organização: Paulo Borges, com o apoio do Círculo do Entre-Ser, associação filosófica e ética

Metro: Cidade Universitária

Entrada livre

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Curso de Introdução à Meditação - nível I: 8, 15 e 17 de Dezembro, 19:30-22:00

Curso de introdução à meditação - nível I
8, 15 e 17 de Dezembro, das 19.30 às 22h

O curso é uma introdução à experiência da atenção plena e ao modo de a integrar em todas as situações da vida quotidiana. Trata-se de não separar a meditação e a vida, encontrando numa mente calma, clara e aberta uma via para uma existência mais plena, livre e solidária. A aprendizagem dos métodos tradicionais de meditação será complementada com o envio para reflexão dos Catorze Treinos da Atenção Plena de Thich Nhat Hanh. *
*Além dos imensos benefícios psicossomáticos, a prática regular da meditação é uma via para o autoconhecimento e para uma vida pessoal, familiar, escolar, profissional e cívica mais consciente, harmoniosa e ética, na relação com os outros seres e o mundo.*
*A meditação é uma experiência independente de qualquer crença religiosa, que hoje goza de crescente reconhecimento científico e está a ser introduzida com muito sucesso em escolas, empresas, hospitais e prisões, além de se tornar parte da vida quotidiana de milhões de pessoas em todo o mundo.

O curso será orientado por Paulo Borges.

*Os participantes devem trazer roupas largas e confortáveis.

Contribuição: 45 euros, (estudantes e sócios: 40 euros)
Importante: uma real indisponibilidade financeira não é impeditiva da frequência do curso.

Local: União Budista Portuguesa, Av. Cinco de Outubro, n.º 122, 8.º Esq., 1050-061 Lisboa.
Contactos para inscrições: 213 634 363, 213 630 850 (das 17h00 às 21h00);
Email: sede@uniaobudista.pt
Indicações:Metro: Campo Pequeno
Autocarro: 21, 38, 44,49, 54, 56, 83, 727, 732, 738,745

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Se víssemos a natureza profunda de todas as coisas apaixonar-nos-íamos loucamente por tudo e todos

Se víssemos a natureza profunda de todas as coisas, nossa, de todos os seres e fenómenos, apaixonar-nos-íamos loucamente por tudo e todos, cairíamos aos pés uns dos outros, arrebatados ante cada forma, cada rosto, cada flor, cada pedra, cada minúsculo insecto, cada luz, cada sombra. Cessariam todos os juízos, conceitos e palavras e o êxtase seria a nossa respiração e a nossa vida. Como é dramático termos todos este potencial e todavia perdermos a vida no tédio, no conflito, no trabalho e no cansaço! Como é trágico passar ao lado da Vida! Tão dramático e trágico que só pode não ser real. Despertemos e deixemos que os corações se dissolvam no Amor.

sábado, 29 de novembro de 2014

"Quem sofre de amor é porque não ama": uma perspectiva budista sobre o amor, os relacionamentos e a sexualidade (workshop)

"Quem sofre de amor é porque não ama": uma perspectiva budista sobre o amor, os relacionamentos e a sexualidade (workshop facilitado por Paulo Borges)

30 de Novembro, 15-19h

Av. 5 de Outubro, 122, 8º esq, Lisboa

Frequentemente confundimos amor com apego, ou seja, a aspiração a tornar alguém feliz com o desejo de que alguém nos torne felizes. Daqui resultam, como sabemos por experiência própria, todo o tipo de conflitos e um imenso sofrimento nos relacionamentos humanos, sejam românticos, familiares ou outros. O workshop visa levar-nos a uma reflexão meditativa sobre a orientação dos nossos afectos e oferece a perspectiva budista sobre a questão, com alternativas para fazermos das nossas relações afectivas e do relacionamento sexual uma via para a realização plena e o autoconhecimento libertador.

Contribuição: 20 euros.

Local: União Budista Portuguesa, Av. Cinco de Outubro, n.º 122, 8.º Esq., 1050-061 Lisboa.
Contactos para inscrições: 213 634 363, 213 630 850 (das 17h00 às 21h00);
Email: sede@uniaobudista.pt

*Os participantes devem trazer roupas largas e confortáveis.

Metro: Campo Pequeno
Autocarro: 21, 38, 44,49, 54, 56, 83, 727, 732, 738,745

Paulo Borges

Nasceu em 1959. Professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ex-presidente (de 2004 a 2014) e membro da Direcção da Associação Agostinho da Silva. Sócio-fundador, ex-presidente da União Budista Portuguesa (de 2002 a 2014) e actual membro da Direcção. Vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral da Sociedade de Ética Ambiental. Cofundador e presidente do Círculo do Entre-Ser.
Autor e organizador de 40 livros de ensaio filosófico, espiritualidade, poesia, ficção e teatro, entre os quais:
O Budismo e a Natureza da Mente (com Matthieu Ricard e Carlos João Correia), 2005; Descobrir Buda. Estudos e ensaios sobre a via do Despertar, 2010; "É a Hora!"A mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa, 2013; Quem é o meu próximo? Ensaios e textos de intervenção por uma consciência e uma ética globais e um novo paradigma cultural e civilizacional, Mahatma, 2014; O Coração da Vida. Visão, meditação, transformação integral, Mahatma, 2015.
Tenta seguir a via do Buda segundo a tradição budista tibetana Nyingma desde 1983 e tem orientado desde 1999 centenas de workshops e cursos de introdução à meditação em todo o país.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Percursos na Vida Plena - começam amanhã, 29 de Novembro, 15-19h


Os PerCursos na Vida Plena são a mais recente iniciativa do Círculo do Entre-Ser e visam preencher algumas das lacunas do ensino oficial e da cultura dominante oferecendo a todos a possibilidade de percursos por experiências e conhecimentos que contribuam para abrir a consciência e o coração, para o desenvolvimento humano integral e para uma sociedade mais desperta e fraterna na relação com a Terra e todos os seres vivos. Pretendemos questionar a percepção convencional do mundo e abrir vias para o Coração da Vida.
Os PerCursos na Vida Plena são constituídos por vários módulos ou workshops que se recomenda que sejam frequentados na totalidade, embora se possam frequentar independentemente.

29 de Novembro, 15-19h

I. O Coração da Vida. Introdução à experiência meditativa (Paulo Borges)

Vivenciaremos a experiência meditativa ou de atenção plena mediante o focar, pacificar e despertar da mente e o abrir do coração para dimensões mais profundas da consciência. Conheceremos métodos simples que nos permitirão continuar a prática, com todos os benefícios cientificamente comprovados e com o supremo benefício de mergulhar no Coração da Vida.

6 de Dezembro, 15-19h

II. Rumo a uma vida mais plena e solidária: os Cinco Treinos da Atenção Plena (Paulo Borges)

Adaptados do texto original de Thich Nhat Hanh, os Cinco Treinos da Atenção Plena constituem linhas orientadoras para o nosso desenvolvimento integral e para uma profunda mudança de paradigma na relação connosco, com todos os seres vivos e com a Terra. Vamos percorrer cinco tomadas de consciência que podem converter-nos em quem realmente somos, mediante uma via espiritual, meditativa e ética laica, transversal a crentes e não-crentes: Reverência pela Vida, Verdadeira Felicidade, Verdadeiro Amor, Escuta Profunda e Discurso Afectuoso, Nutrição e Cura.

13 de Dezembro, 15-19h

III. Despertar a essência dos sentidos (Fernando Emídio)

Num workshop destinado a crianças e adultos (pais, avós, tios…), faremos uma viagem pelos sentidos através de exercícios de atenção plena, como forma de nos ancorarmos na vivência do momento presente. Haverá momentos de reflexão, partilha e fruição de experiências conjuntas criança/adulto.

20 de Dezembro, 15-19h

IV. Meditação, stresse e saúde (Micael Inês)

Na componente teórica deste módulo conheceremos diversos estudos científicos sobre os benefícios da meditação na saúde física e mental, nas relações humanas e no bem-estar e desempenho laborais. Na componente prática experimentaremos técnicas usadas no contexto terapêutico e laboral para reduzir o stresse e optimizar a atenção plena.

10 de Janeiro, 15-19h

V. O Entre-Ser e a Essência dos Elementos (Daniela Velho)

Trabalhar com os elementos naturais em estado selvagem (Terra-Água-Ar-Fogo) permite-nos conectar com a essência da Vida e abrir espaço ao emergir de energias profundas propiciadoras de cura e regeneração. Neste workshop vamos recriar interiormente o Espaço Natural que tudo acolhe e que tudo nutre, em busca do reequilíbrio do Entre-Ser a partir das suas dimensões mais subtis.

“Penetra no coração de uma gota de água -
serás inundado por uma centena de puros oceanos.
Se examinares cuidadosamente um grão de poeira,
verás um milhão de seres inconcebíveis.
Os membros de uma mosca são como os de um elefante.
Uma centena de colheitas reside no âmago de uma semente de cevada.
As sementes de millet encerram um mundo inteiro.
As asas de um insecto desvendam um oceano.
As centelhas cósmicas repousam ocultas na pupila do meu olho
e de alguma forma o centro do meu coração
contém o Pulsar do Universo”.

~ Mahmud Shabistari

17 de Janeiro, 15-19h

VI. Ciência e espiritualidade: (in)compatíveis? (Ângela Santos)

Ciência e espiritualidade - duas abordagens diferentes na incansável tentativa de compreensão do que nos cerca e do que somos. Mas, sendo diferentes, serão também divergentes? No grande debate acerca da natureza da realidade haverá encontro ou desencontro entre elas? Dotadas de diferentes instrumentos de medida, qual antecipa qual? Qual valida qual? Recorrendo a instrumentos cada vez mais capazes, a ciência tem avançado na sua aproximação à realidade. Mas será que, ficando-nos por esta via apenas, conseguiremos um dia conhecer a verdade toda? E porque não iniciarmos, nós próprios, uma “viagem” exploratória? Porque não recorrermos ao nosso próprio equipamento? Ou seja, a esse instrumento precioso utilizado por excelência na espiritualidade: a nossa mente. Tal como um cientista faz as suas pesquisas recorrendo à tecnologia, propõe-se que utilizemos os nossos recursos internos e façamos nós próprios a observação, a exploração. No início haverá dificuldades, o instrumento não estará adaptado e é rebelde, difícil de controlar. Mas com o devido treino a afinação da ferramenta estará garantida e com ela a entrada na experiência directa dos fenómenos.

Apresentação dos facilitadores:

Paulo Borges

Nasceu em 1959. Professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ex-presidente (de 2004 a 2014) e membro da Direcção da Associação Agostinho da Silva. Sócio-fundador, ex-presidente da União Budista Portuguesa (de 2002 a 2014) e actual membro da Direcção. Vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral da Sociedade de Ética Ambiental. Cofundador e presidente do Círculo do Entre-Ser.
Autor e organizador de 40 livros de ensaio filosófico, espiritualidade, poesia, ficção e teatro, entre os quais: O Budismo e a Natureza da Mente (com Matthieu Ricard e Carlos João Correia), 2005; Descobrir Buda. Estudos e ensaios sobre a via do Despertar, 2010; “É a Hora!” A mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa, 2013; Quem é o meu próximo? Ensaios e textos de intervenção por uma consciência e uma ética globais e um novo paradigma cultural e civilizacional, Mahatma, 2014. O Coração da Vida. Espiritualidade, meditação, acção integral, vol. I, Mahatma, 2014.
Tenta seguir a via do Buda segundo a tradição budista tibetana Nyingma desde 1983 e tem orientado desde 1999 centenas de workshops e cursos de introdução à meditação em todo o país.

Fernando Emídio

Nasceu a 20 de dezembro de 1974, em Mirandela.
Formou-se na área de educação, tem exercido sempre funções de professor do 1.º ciclo do ensino básico, tendo passado também pela educação de adultos. Atualmente exerce funções de coordenador pedagógico do 1.º ciclo num Agrupamento de Escolas.
Há vários anos que se interessa pela aplicação de práticas contemplativas na educação, tendo feito formação nessa área, nomeadamente nos programas MindUp (The Hawn Foundation) e Still Quiet Place (Dr. Amy Saltzman). Tem sido responsável por aplicar um programa de desenvolvimento de competências sócio-emocionais, baseado na atenção plena (MindUp) aos alunos do 1.º ciclo do Agrupamento onde lecciona.

Desde 2009 que dinamiza em conjunto com Micael Inês o Núcleo de Estudo do Dharma de Leiria. É cofundador do Círculo do Entre-Ser.
Tenta ser praticante de meditação e viver de acordo com os valores universais do Dharma do Buda.

Micael Inês

Enfermeiro no Serviço de Medicina Intensiva do Centro Hospitalar de Leiria, EPE. Membro da Comissão de Humanização do Centro Hospitalar de Leiria, EPE. Membro do Círculo do Entre-Ser. Cofundador do Núcleo de Estudo do Dharma de Leiria.
Pratica meditação desde 2008.

Ângela Santos

Professora no Departamento de Química e Bioquímica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Apaixonada pelo mistério da Vida, frequentou o curso “O Universo e o Plano Divino” no Centro Lusitano de Unificação Cultural e o Curso de Especialização “Filosofia e Estudos Orientais“ na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
É praticante de meditação e tenta seguir a via do Dharma do Buda conforme a tradição do budismo Tibetano. É cofundadora e presidente da Assembleia-Geral do Círculo do Entre-Ser.

Daniela Velho

Nasceu em 1976. Cofundadora e Vice-presidente do Círculo do Entre-Ser. Vice-presidente da Assembleia-Geral da União Budista Portuguesa. Membro associado da SEA - Sociedade de Ética Ambiental. Jurista.
Praticante do Dharma do Buda (Tradição Nyingma do Budismo Tibetano) desde 2010. Praticante regular de meditação desde 2010.
Procura orientar a sua vida por valores de amor e compaixão universal numa tentativa de aprofundamento e expansão da consciência com base na compreensão da interdependência de todos os fenómenos. Procura cultivar um espírito vivo, indagador e de compreensão intuitiva do mundo.

Local: Av. 5 de Outubro, 122 – 8º esq. - Lisboa

Inscrições: percursosvidaplena@circuloentreser.org / 213634363 (depois das 17h)

Informações sobre os PerCursos:
pauloaeborges@gmail.com

Contribuição:

Totalidade dos módulos: 100 euros; módulos separados: 20 euros, com excepção do módulo III - 1 criança (10€) + 1 adulto (15€) = 25€; 1 criança (10€) + 2 adultos (25€) = 35€.

Há limite de inscrições e uma real indisponibilidade financeira não é impeditiva.

Serão emitidos certificados de participação a quem frequente a totalidade do PerCurso.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A grande tarefa política é transcender e dispensar a política

A grande limitação da política, ou pelo menos da política tradicional e convencional, seja de esquerda, centro ou direita, partidária ou não, é o de girar sempre em torno da conquista, exercício ou influência do poder, institucional ou não, estatal, cultural ou mediático. E outra grande limitação é tender sempre a ser antropocêntrica, pois é coisa da “polis”, da cidade ou sociedade dos humanos, que se ficciona separada da comunidade natural e cósmica e trata como escravos os animais e a Terra.

Da primeira orientação vem a importância, desde a Ágora grega até aos actuais espectáculos eleitorais e parlamentares, do debate público entendido como combate para vencer o adversário e colher votos e apoios. Daí a centralidade da oratória e da retórica que visa a persuasão, o convencer os outros de que se tem razão para se ter poder, o que, porque raramente funciona (porque os outros também pretendem ter razão e poder e porque o que move as supostas “razões” de uns e outros são quase sempre os desejos e interesses egocêntricos, individuais e grupais), conduz frequentemente à corrupção, mentira, calúnia e difamação, quando não à agressão física e ao assassínio. A essência oculta ou patente da política tradicional é o combate e a violência.

E este é o problema. Porque é a desconexão e a consequente luta pelo poder, do humano sobre o humano, os animais e o mundo, que está no centro da actual crise da civilização. O maior problema da política tradicional é ela mesma. É por isso que não o pode resolver e precisamos de outra coisa. Não de política, no sentido habitual, mas da experiência social do despertar e da expansão da consciência amorosa e compassiva. Que nasce não do “poder” entendido como domínio sobre o outro - o que é uma forma de auto-escravização, pois o tirano também é escravo da sua tirania - , mas do poder de ser, aqui-agora, simultaneamente livre de todos os poderes e inseparável dos outros, de todas as formas de vida, não visando por isso dominar quem quer que seja. Não visando servir-se, mas antes servir: o sentido antigo da palavra “ministro”.

A grande tarefa política é na verdade micropolítica e metapolítica: organizar a república da mente e do coração mediante a atenção plena a si, de modo a assegurar o bom governo de cada um pelo melhor de si mesmo, e transcender e dispensar a política em sociedades humanas cada vez mais despertas, fraternas e abertas à comunidade cósmica, mediante a atenção plena à interdependência com todo o outro, humano e não-humano. Sociedades humanas que estendam a todos os seres e entidades naturais a categoria de “próximo” e que se organizem não para manter e reproduzir uma vida alienada, mas para promover uma vida boa e plena, para humanos e não-humanos, em harmonia com a Terra. O que começa por abrir e expandir espaços de vida desperta, solidária e liberta, sendo o primeiro de todos o da própria consciência. Pequenos grupos de afinidade que se associem e expandam, comunidades em transição, germes de criatividade e libertação num mundo de instituições cada vez mais decadentes, atrofiadas e destrutivas por falta da verdadeira inteligência: a da interconexão, do amor e da compaixão.

O fim da civilização humanista e antropocêntrica e os novos/velhos riscos

Um dos sinais mais evidentes do fim da civilização humanista e antropocêntrica, pelo menos na sua versão europeia-ocidental, é que o ser humano está desiludido, cansado e desgostoso de si e já não acredita em si mesmo. Apesar de se comportar ainda, por medo, hábito e inércia, como um deus na terra, no fundo prefere tudo a si próprio: os animais, a natureza, os astros, os espíritos, os deuses, Deus. O ser humano, na verdade, começa enfim a ver que ele próprio não existe em si e por si, que a sua identidade nada é senão em relação de estreita interdependência com essas formas de alteridade. Isto é positivo, em termos de abertura da consciência, mas o risco é absolutizar uma ou várias destas alteridades e acreditar que elas possam também existir em si e por si. O risco é sair do obscurantismo humanista e antropocêntrico para cair nas sombras animalistas, naturalistas, astrológico-deterministas, animistas, politeístas ou monoteístas. O risco é manter-se a ilusão de que há algum centro ou domínio privilegiado da realidade e algo a que nos agarrarmos. O risco é não despertarmos para a liberdade do grande vazio luminoso e compassivo que se ri de todas as quimeras da mente.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

"Quem sofre de amor é porque não ama": uma perspectiva budista sobre o amor, os relacionamentos e a sexualidade (workshop)

"Quem sofre de amor é porque não ama": uma perspectiva budista sobre o amor, os relacionamentos e a sexualidade (workshop facilitado por Paulo Borges)

30 de Novembro, 15-19h

Av. 5 de Outubro, 122, 8º esq, Lisboa

Frequentemente confundimos amor com apego, ou seja, a aspiração a tornar alguém feliz com o desejo de que alguém nos torne felizes. Daqui resultam, como sabemos por experiência própria, todo o tipo de conflitos e um imenso sofrimento nos relacionamentos humanos, sejam românticos, familiares ou outros. O workshop visa levar-nos a uma reflexão meditativa sobre a orientação dos nossos afectos e oferece a perspectiva budista sobre a questão, com alternativas para fazermos das nossas relações afectivas e do relacionamento sexual uma via para a realização plena e o autoconhecimento libertador.

Contribuição: 20 euros.

Local: União Budista Portuguesa, Av. Cinco de Outubro, n.º 122, 8.º Esq., 1050-061 Lisboa.
Contactos para inscrições: 213 634 363, 213 630 850 (das 17h00 às 21h00);
Email: sede@uniaobudista.pt

*Os participantes devem trazer roupas largas e confortáveis.

Metro: Campo Pequeno
Autocarro: 21, 38, 44,49, 54, 56, 83, 727, 732, 738,745

Paulo Borges

Nasceu em 1959. Professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ex-presidente (de 2004 a 2014) e membro da Direcção da Associação Agostinho da Silva. Sócio-fundador, ex-presidente da União Budista Portuguesa (de 2002 a 2014) e actual membro da Direcção. Vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral da Sociedade de Ética Ambiental. Cofundador e presidente do Círculo do Entre-Ser.
Autor e organizador de 40 livros de ensaio filosófico, espiritualidade, poesia, ficção e teatro, entre os quais:
O Budismo e a Natureza da Mente (com Matthieu Ricard e Carlos João Correia), 2005; Descobrir Buda. Estudos e ensaios sobre a via do Despertar, 2010; "É a Hora!"A mensagem da Mensagem de Fernando Pessoa, 2013; Quem é o meu próximo? Ensaios e textos de intervenção por uma consciência e uma ética globais e um novo paradigma cultural e civilizacional, Mahatma, 2014; O Coração da Vida. Visão, meditação, transformação integral, Mahatma, 2015.
Tenta seguir a via do Buda segundo a tradição budista tibetana Nyingma desde 1983 e tem orientado desde 1999 centenas de workshops e cursos de introdução à meditação em todo o país.

domingo, 23 de novembro de 2014

Prenderam José Sócrates. E os outros? E nós?

Prenderam José Sócrates para investigação. Com um tal mediatismo e juízo em praça pública que não deixa de levantar fortes suspeitas de mais uma manobra político-partidária, independentemente da sua eventual culpa. Prenderam José Sócrates para investigação. E os outros? Toda a casta de políticos e administradores profissionais que têm enriquecido à custa da política? Quando são investigados? E todos nós, que passamos a vida a condená-los, como se fôssemos um espelho de virtudes? Quando é que nos "prendemos" e investigamos a fundo e vemos toda a nossa responsabilidade, passiva e activa, pelo estado de corrupção generalizada em que está o país? Se víssemos as coisas profundamente, talvez descobríssemos que aquilo de que se acusa José Sócrates e outros é o que impera no estilo de vida dominante de toda uma sociedade. Sim, porque os governos e os líderes são um espelho das sociedades e das nossas consciências. O que temos nós feito para termos um país diferente? O que temos nós feito pelo bem comum? O que temos nós feito senão zelar pelas nossa vidinhas egoístas? Não é isso que fazem os “políticos” que tanto condenamos, só que a uma escala maior porque têm mais poder? Como podemos então acusá-los, como se estivéssemos inocentes? À medida que formos mais justos e virtuosos a sociedade também o será e os políticos e partidos de que agora nos queixamos deixarão pura e simplesmente de ser credíveis e até possíveis. Até lá, não tenhamos a arrogância de nos julgarmos muito diferentes.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Quanto mais interessados mais aborrecidos

Como Charles Eisenstein escreve algures, a partir do século XVII proliferaram no vocabulário das línguas ocidentais as expressões “interessado” e “aborrecido”. Com efeito, quanto mais interessados estamos em algo especial e em especial, mais a atenção e o desejo se prendem e limitam a isso e mais dependente fica o contentamento de que isso esteja ou não presente. Quanto mais interessados estamos nisto ou naquilo, menos interessados estamos em tudo o demais e sobretudo na simples e constante experiência de ser, menos interessados estamos no próprio “inter-esse” (que, literalmente, indica o “estar entre” ou o que nos introduz no ser), menos fruímos o que sempre acontece e mais alimentamos a expectativa de que algo diferente e novo corresponda aos nossos sedentos desejos particulares. E assim tudo o que não lhes corresponde se torna banal, insípido e nos aborrece: o ser, o estar vivo, o respirar, os outros, o céu e a terra, a dança do mundo e da vida. O problema é que mesmo os nossos interesses particulares acabam por se tornar rotineiros e aborrecidos, porque na verdade o que neles procuramos é sempre outra coisa: o maravilhamento que perdemos ao deixar de nos maravilhar com tudo. Não é por acaso que isto se tenha avolumado desde o século XVII, quando a modernidade definitivamente se instalou sacrificando de vez o espanto ante o mistério do mundo ao desejo de novidades e estímulos, de viajar, conhecer e dominar novas terras e gentes e de fazer e produzir coisas. Todos somos seus filhos: turisticamente interessados por tudo, com tudo entediados e com nada satisfeitos. A sociedade da produção, do cansaço e da depressão, como diz Byung-Chul Han. Mas a alternativa, se foi por nós abandonada, nunca nos abandonou: desinteressar-se do falso prestígio das coisas, dos acontecimentos e das pessoas “interessantes”, quebrar o sortilégio da sua sedução e redespertar para o infinito pasmo de todas as coisas, por mais ínfimas – uma brisa, a poeira do caminho, uma flor, o olhar atónito de um animal, o vago prenúncio de uma carícia, uma nuvem, um... o estarmos aqui-agora... o não sei quê disto tudo...

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Uma experiência que mudou uma vida


Jack Kornfield relata deste modo a experiência de um amigo activista e jornalista palestiniano, Salam, ao ser espancado por um guarda prisional israelita:

“Uma tarde, após haver sido violentamente espancado, o seu corpo jazia no chão da prisão e ele estava a ser pontapeado por um guarda particularmente cruel. Sangue jorrava da sua boca e, como afirmou mais tarde o relatório policial, as autoridades acreditaram que estava morto.

Ele recorda a dor de ser espancado. Então, como é frequentemente relatado por vítimas de acidente e de tortura, sentiu a sua consciência deixar o seu corpo e flutuar até ao tecto. Primeiro era pacífico e calmo, como num filme mudo, enquanto via o seu próprio corpo deitado em baixo a ser pontapeado. Era tão pacífico que ele não sabia o que era todo aquele espalhafato. E depois Salam descreve como, de um modo notável, a sua consciência se expandiu mais. Ele soube que era o seu corpo que estava deitado em baixo, mas agora sentiu que ele era também a bota pontapeando o corpo. Ele era também a descascada pintura verde nas paredes da prisão, a cabra cujo som podia ouvir-se lá fora, a sujidade debaixo das unhas do guarda – ele era a vida, toda ela e a consciência eterna dela toda, sem separação. Sendo tudo, jamais podia morrer. Todos os seus medos se desvaneceram. Tomou consciência que a morte era uma ilusão. Um bem-estar e uma alegria para além de qualquer descrição abriram-se nele. E então surgiu uma espontânea compaixão pela espantosa loucura dos humanos, crendo que estamos separados, apegando-se a nações e fazendo guerra.

Dois dias mais tarde, como Salam o descreve, recuperou a consciência num corpo magoado e espancado no chão de uma cela, sem medo ou remorso, apenas assombro. A sua experiência mudou todo o seu sentimento da vida e da morte. Recusou continuar a participar em qualquer forma de conflito. Quando foi libertado, casou com uma mulher judia e teve filhos palestiniano-israelitas. Essa, disse, foi a sua resposta à disparatada demência do mundo”

~ Jack Kornfield, The Wise Heart, 2009, pp.42-43.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A grande tarefa política é metapolítica: transcender e dispensar a política

A grande limitação da política, seja de esquerda, centro ou direita, partidária ou não, é o de girar sempre em torno da conquista, exercício ou influência do poder, institucional ou não, estatal, cultural ou mediático. E outra grande limitação é ser sempre antropocêntrica, pois é coisa da “polis”, da cidade ou sociedade dos humanos, que se ficciona separada da comunidade natural e cósmica e trata como escravos os animais e a Terra. Daí vem a importância, desde a Ágora grega até aos nossos espectáculos eleitorais e parlamentares, do debate público entendido como combate para vencer o adversário e colher votos e apoios. Daí a importância da oratória e da retórica que visa a persuasão, o convencer os outros de que se tem razão para se ter poder, o que, porque nunca funciona (porque os outros também pretendem ter razão e poder), conduz inevitavelmente à corrupção, à mentira, à calúnia e à difamação, quando não à agressão física e ao assassínio. A essência oculta ou patente de toda a política é o combate e a violência. E este é o problema. Porque é a desconexão e a consequente luta pelo poder, do humano sobre o humano, os animais e o mundo, que está no centro desta crise de civilização. O maior problema da política é a própria política. É por isso que ela não o pode resolver e precisamos de outra coisa. Não de política, mas da experiência social do despertar e da expansão da consciência e do amor. Que nasce do poder de ser, aqui-agora, inseparável dos outros, de todas as formas de vida, e por isso não visa o poder como domínio sobre quem quer que seja. A grande tarefa política é metapolítica: transcender e dispensar a política em sociedades humanas cada vez mais despertas, fraternas e abertas à comunidade cósmica. O que começa por abrir e expandir espaços de vida desperta, solidária e liberta, a começar pelo espaço da própria mente. Pequenos grupos de afinidade, microcomunidades em transição, germes de criatividade e libertação num mundo de instituições cada vez mais decadentes, atrofiadas e destrutivas: as políticas e todas as demais.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ser "culto" é muitas vezes o fim da Cultura

Outrora havia muitos analfabetos, que não sabiam ler nem escrever línguas humanas, mas ainda podiam ler e comunicar os sinais das coisas vivas: o pulsar da terra, os avisos do vento, as metamorfoses das nuvens, os ritmos das águas, o brilho dos astros, as expressões das pedras, as emoções das plantas, os sentimentos dos animais, as solicitações dos espíritos, os fluxos do invisível. Hoje há cada vez menos desses analfabetos, mas superabundam os analfabetos letrados e diplomados que só sabem ler, escrever e comunicar palavras (e mesmo assim dificilmente), mas ignoram de todo as múltiplas línguas e linguagens em que os seres e as coisas do mundo constantemente nos falam e comunicam. Ser “culto” é muitas vezes o fim da Cultura.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

"Fazer acontecer", "produzir"?

Não se mudará o paradigma enquanto se pensar em termos de “fazer acontecer”, “produzir pensamento” ou outra coisa e se quiser organizar, regulamentar, avaliar e controlar tudo. Esse é o paradigma voluntarista, produtivista, economista, empresarial e tecnocrático da civilização industrial e do esclavagismo trabalhista que está a entrar em colapso, destruindo o planeta e a vida. Quem assim fala mostra que vive enfeitiçado pelos ritmos do formigueiro antropocêntrico, permanecendo à superfície das regiões profundas do ser onde tudo emerge em fluxo autorregulador, espontâneo e livre. Quem assim fala porventura faz coisas, mas não age. Quem assim fala porventura produz pensamentos, mas não pensa. Quem assim fala porventura produz textos, mas não escreve. Quem assim fala porventura “faz amor”, mas não ama. Quem assim fala, pertence ao passado, por mais que fale em futuro. Quem assim fala, mais valia estar calado.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Não te compares

Não te engrandeças nem diminuas. Não te superiorizes, inferiorizes ou iguales. Não te compares. Nada temos a ver com o que a mente imagina que somos. Porque a mente mente na medida em que mede o que não tem medida (a raiz indo-europeia de “mente”, màn-, significa “medir”). A mente compara, avalia e julga. Mas ser é sem medida e para além de qualquer valor ou juízo. Ser é sem par e sem juízo. Por isso as crianças e os loucos são infinitamente mais sábios do que toda esta humanidade previsível, sensata e aborrecida.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

De como as culturas são sistemas de limitação da consciência


“(…) a maioria das nossas vidas gasta-se numa realidade consensual, que especialmente talhou e selectivamente percepcionou um segmento de realidade construído do espectro do potencial humano. Somos simultaneamente os beneficiários e as vítimas da nossa cultura. Ver as coisas de acordo com a realidade consensual é bom para manter em conjunto uma cultura, mas um obstáculo maior à compreensão pessoal e científica da mente.

Uma cultura pode ser vista como um grupo que seleccionou certos potenciais humanos como bons e os desenvolveu, rejeitando outros como maus. Internamente isto significa que certas experiências possíveis são encorajadas e outras suprimidas para construir um estado “normal” de consciência que seja eficaz em e ajude a definir a particular realidade consensual da cultura”

- Charles T. Tart, States of Consciousness, 2000, pp.33-34.

Somos normais?

E se a base daquilo que consideramos o estado normal de consciência, o vermo-nos como indivíduos separados uns dos outros, dos demais seres e do mundo, fechados nos limites da pele e do cérebro, não fosse senão um estado alterado de consciência, um transe, uma bebedeira ou um sonho social e colectivo que a pouco e pouco se instalou sem darmos por isso e ao qual nos habituámos como real? Um transe no qual a consciência diminui e se atrofia em vez de abrir e se expandir? E se estivéssemos mais mortos que vivos nesta vida mesquinha e limitada que achamos ser a única possível? E se a grande mudança não puder ser outra senão a da percepção que temos de nós, dos outros e do mundo? E se, sem mudar isso, pretender mudar o mundo exteriormente não for senão uma pura impossibilidade? Estaremos preparados para reconhecer que, quanto mais normais achamos que somos, mais louca é a trip, a embriaguez ou o delírio em que vivemos? Admitir a mera possibilidade disto é já o início do despertar...

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Democracia, aristocracia interna, anarquia ou acracia

A democracia será sempre o mais paradoxal dos sistemas de governo. Defende o governo pela maioria, mas a história e a condição humana mostram ser sempre uma minoria que aceita subordinar-se à vontade maioritária, de bom grado e sem ser movida por expectativa de recompensa e temor de punição. A maioria dos humanos, mesmo que sejam democratas de aparência, são autocratas e potenciais ditadores no íntimo. É por isso que a democracia formal, seja representativa ou participativa - sem educação para uma aristocracia interna a cada cidadão, pela qual cada um procure autogovernar-se pelo melhor de si mesmo, o espírito de renúncia ao egoísmo, o que ao limite conduz à anarquia ou acracia, a dispensa de todo o poder coactivo externo – , não resolve por si só nenhum dos problemas políticos da humanidade.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Breve análise dos resultados das eleições para a presidência do PAN

Foi ontem eleito presidente do PAN em eleições directas o rosto de um grupo que montou um esquema para acabar, no próximo Congresso, com a figura do presidente e com as eleições directas, tendo por isso concorrido a presidente em eleições directas... :)

Numa eleição em que havia dois candidatos, e portanto razões acrescidas para os filiados irem votar, o novo presidente foi eleito com 109 votos, cerca de 13% de um partido que conta com mais de 800 filiados (escasso resultado, para tanto esforço com telefonemas, almoços e contactos). A Direcção anterior, que foi a única lista concorrente, teve 115 votos numa altura em que o partido tinha cerca de 600 filiados, conseguindo cerca de 20% dos votos possíveis. Nestas eleições, o total dos votantes não chegou sequer a 20% dos filiados.

Ou seja, no PAN a maioria é cada vez mais representada e governada por uma minoria ainda menos representativa do que aquela que elege os partidos e candidatos vencedores nas eleições Legislativas e Presidenciais nacionais. Mas a isto chama-se democracia representativa.

Responsabilidade de quem se abstém? Sim. Mas só de quem se abstém? Não será coresponsabilidade dos candidatos e do próprio partido, que não leva os filiados a sentirem que é importante no mínimo votarem? E não será a própria democracia representativa a mostrar a sua profunda crise?

Legitimidade de quem é eleito? Sim, regulamentar e formal. A mesma que têm neste momento Cavaco Silva e o PP/PSD, eleitos para governar, influenciar e prejudicar a vida de toda a população com uma pequena minoria de todos os votantes possíveis. Mas haverá verdadeira legitimidade moral? E pensarão os “vencedores” nisto? Interrogar-se-ão sobre o sentido, o fundamento e a legitimidade da sua “vitória”? Duvido. Não parece (Não me excluo desta reflexão crítica, pois também fui eleito, com a Direcção anterior, por uma minoria de todos os filiados do PAN).

Assim vão as coisas na política e na democracia. A Vida felizmente segue o seu curso. Inteira. Sem partidos.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Queres fazer algo de realmente útil, nesta tua curta passagem por este mundo?

Queres fazer algo de realmente útil, nesta tua curta passagem por este mundo? Coloca primeiro que tudo a ti e depois aos teus semelhantes as questões que ninguém coloca e que todos rejeitam. E se não tiveres respostas tem a coragem de as não inventares, cedendo aos teus interesses ou aos do teu grupo ou espécie. Podes acabar no ostracismo, no ridículo ou na fama, mas terás contribuído para que não adormeçamos sossegados na almofada da ilusão. E a tua melhor recompensa será nunca a teres nem procurares.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Declaração sobre o PAN e a minha não recandidatura a presidente

Declaração sobre o PAN e a minha não recandidatura a presidente

Caras filiadas e caros filiados do PAN
Caros cidadãos
Caras amigas e caros amigos

Por imperativo de consciência, pelas responsabilidades até hoje assumidas no PAN e pensando nas muitas pessoas que por confiança em mim se tornaram filiados e votantes no PAN, sinto o dever ingrato de escrever o que segue, expondo a minha leitura dos recentes acontecimentos, bem como as razões da minha demissão de presidente a meio do mandato e de não me recandidatar, apesar de ter sido exortado a isso por muitas pessoas, cujo apoio agradeço. Como disse na declaração que fiz na última reunião da Comissão Política Nacional, a 13 de Setembro, o futuro dirá onde acerto e onde erro, onde sou justo e onde sou injusto. Espero estar errado, mas duvido sinceramente disso.

Quando me tornei um dos fundadores do PAN e aceitei o convite para me candidatar a seu presidente, julguei possível, apesar das minhas fortes reservas em relação aos partidos políticos, construir em Portugal um projecto político diferente, que subordinasse a política à ética e não restringisse esta aos humanos, alargando-a a todos os animais e à natureza. Um projecto político de causas e não de carreirismos e lutas pelo poder. Creio que foi isso que muitos portugueses esperaram e esperam de nós e daí a grande votação de 2011 e os bons resultados posteriores. Passados quatro anos, vejo todavia com tristeza que fui muito ingénuo, constatando que de 2011 até agora boa parte do tempo, da energia e das capacidades que as pessoas dedicam ao PAN se esgota na melhor das hipóteses em burocracias e na pior em lutas internas, campanhas de difamação, jogos de bastidores, lutas de secretaria, impugnações no Tribunal Constitucional e manobras maquiavélicas de luta pelo poder sem o mínimo de escrúpulos e decência.

Eu e a Direcção demissionária tivemos contra nós o ódio de estimação de quem queria fazer do PAN um partido só pelos animais e sobretudo pelos animais domésticos, ao contrário do projecto global que sempre defendi, que considera as causas humana, animal e ambiental como uma só e que sempre teve o apoio esmagador dos delegados aos Congressos. Esse ódio materializou-se em campanhas baixas de difamação pessoal, em mensagens ameaçadoras e chantagistas que recebi até pouco tempo antes da demissão e em processos no Tribunal Constitucional, todos improcedentes, que prejudicaram muito a actividade do partido em momentos eleitorais decisivos. Apesar disto tudo, o partido teve sempre um crescimento sustentado, tendo tido bons resultados nas eleições Autárquicas de 2013, com a eleição de vários deputados municipais, e tendo tido resultados positivos nas Europeias de 2014, onde subimos percentualmente num contexto de grande subida da abstenção e tivemos resultados que, segundo analistas políticos isentos, permitem antever a eleição de pelo menos um deputado em Lisboa, e porventura outro no Porto, nas Legislativas de 2015. Se perdemos votos em termos absolutos todos os partidos os perderam e muito mais do que nós. Se fomos ultrapassados pelo LIVRE e pelo MPT só quem estiver de má-fé pode ocultar que, apesar de termos uma subvenção e eles não, eles tiveram a subvenção muito mais eficaz de terem figuras mediáticas, com presença regular na comunicação social.

Foi então, quando num partido político minimamente normal todos estariam unidos para preparar um grande sucesso em 2015, que surgiu um grupo na Comissão Política Nacional que começou a fazer uma leitura miserabilista e a meu ver estrategicamente maldosa destes resultados eleitorais, bem como da actividade da Direcção Nacional, por mim presidida (agora Comissão Política Permanente). Para eles tudo passou a estar mal, os resultados eleitorais ameaçavam a não eleição de nenhum deputado e a perda da subvenção e a DN tinha ficado muito aquém de cumprir o que prometera ao candidatar-se (mas, contraditoriamente, reconheceram que, a meio do mandato, tínhamos realizado 15 das 40 medidas propostas, ou seja, 40%, o que, com mais um ano pela frente, permitia antever chegarmos aos 80% ou mais, sobretudo quando havíamos contratado um assessor particularmente activo, o Maurício Pereira, contratação que por isso mesmo começou a ser questionada...).

Claro que eu e a Direcção Nacional reconhecemos que havia muitas coisas que estavam mal, que não estavam bem ou completamente bem e deviam ser melhoradas, nomeadamente em termos de organização e comunicação interna, de relação com os Conselhos Locais, etc. Por isso mesmo, e assumindo algumas fragilidades devido à indisponibilidade recente de alguns membros (por exemplo, o Orlando Figueiredo, candidato às Europeias, passou a trabalhar em Bruxelas), a DN pediu apoio à CPN para poder executar um plano de acção estratégica que pusesse desde já o partido em pré-campanha para as Legislativas de 2015, de modo a garantirmos a eleição de pelo menos um deputado. É aqui que começa um dos episódios mais vergonhosos da curta história deste partido. Esse apoio foi-nos prometido e foi criado um grupo de trabalho para conceber esse plano de acção estratégica mas, ao mesmo tempo, nas costas da DN e de cerca de metade dos comissários políticos, bem como de todos os filiados, o grupo que agora se chama “Inteligência Colectiva” começou a reunir a sós para preparar documentos onde se convocava um Congresso para nele se propor uma nova alteração dos Estatutos (cinco meses após a última) para pôr fim à figura/órgão do Presidente do partido, substituindo-o por uma Comissão Política Permanente com sete rostos e apenas eleita pelos delegados ao Congresso. Ou seja, caso isto fosse aprovado, os filiados perdiam a única possibilidade que ainda lhes restava, segundo os actuais estatutos, de participarem directamente na vida do partido, elegendo o/a Presidente. Isto tudo em nome de mais democracia!... Foi essa proposta que, após muitas manobras de bastidores e de difamação da Direcção Nacional, foi apresentada para ser votada na reunião da CPN de 13 de Setembro.

A proposta foi energicamente rejeitada por mim e por todos os membros, menos um, da DN, bem como por vários comissários e desafio a Mesa da CPN a divulgar aos filiados, como é devido, a acta com as declarações contundentes aí proferidas. Pessoalmente, denunciei esta manobra como uma golpada anti-democrática movida pelos principais mentores do grupo da “inteligência colectiva”, Albano Lemos e André Silva, para destituírem uma DN e um presidente eleitos directamente pelos filiados e ainda a meio do mandato, conquistando o poder mediante um Congresso convocado à pressa onde, caso a sua proposta fosse aprovada, se candidatariam à CPP e poderiam chegar à liderança sem serem eleitos por todos os filiados. Denunciei ainda a irresponsável habilidade do Albano para fazer e desfazer estatutos segundo os seus interesses do momento (ele e o André Silva estiveram no grupo de trabalho da revisão dos estatutos que cinco meses atrás previa a manutenção do/da Presidente e a sua eleição directa por todos os filiados), bem como o carreirismo do André Silva, que apresenta trabalho exterior em prol do partido mas oculta o trabalho interior de dividir para reinar. Foi por isso que eu e os outros nos demitimos, para impedir este golpe e para o denunciar, como fizemos lançando uma campanha por um referendo onde os filiados se possam pronunciar se querem ou não manter a figura do/da Presidente e a sua eleição directa por todos os filiados do PAN. Perante o fracasso da manobra, pois com a minha demissão e da DN tem de haver eleições directas para a presidência, que estão a decorrer, e perante esta denúncia, o grupo da “inteligência colectiva” apresentou a candidatura do André Silva e deu uma autêntica cambalhota, pois agora já quer eleger os 21 membros da CPP em eleições directas, mantendo a proposta de acabar com o/a presidente. Um partido sem um rosto visível e carismático é, na minha perspectiva e de muitos, um autêntico tiro no pé em termos políticos e de comunicação social, sobretudo em Portugal.

A meu ver, por detrás do grupo da “inteligência colectiva” e da candidatura do André Silva, bem como da leitura miserabilista dos resultados das Europeias e dos ataques à DN e à minha pessoa, está, contrariamente ao que é dito, a convicção de que o partido está em óptimas condições para eleger um ou dois deputados e manter a subvenção. E este cheiro a dinheiro e poder atrai irremediavelmente pessoas com ambições a ser deputados que viram que me tinham no caminho, pois comecei a denunciar com o meu habitual desassombro as suas manobras e intenções carreiristas. Devo aqui dizer que nunca ambicionei ser deputado, e que nada me seduz ficar fechado dentro da coisa chata e cinzenta chamada Assembleia da República, mas que me disponibilizei para tal porque sei que poderia levar lá uma voz eloquente, iconoclasta e não convencional em defesa das causas do PAN, porque o partido e a Secretaria de Comunicação desde o início investiram em mim para esse fim e porque me via como a pessoa melhor colocada para ser eleita, estando convencido, sem falsas modéstias, que faria um bom trabalho e traria muito mais apoio e visibilidade para o PAN e as suas causas. Quando tudo estava reunido para que tal acontecesse, é sintomático que surjam alguns arrivistas e recém-chegados que, em nome da unidade na diversidade, na verdade estão a lançar o partido na divisão e no caos, empurrando para fora dele alguns dos históricos e dos membros mais decisivos da equipa que, em vários órgãos nacionais, contribuiu desde o início para que o PAN seja hoje uma referência respeitável na política nacional e o segundo partido de defesa dos animais a ter mais sucesso em todo o mundo, logo a seguir ao holandês, como tem sido reconhecido e enaltecido nos encontros internacionais onde tenho participado.

A cereja no topo do bolo desta falta de decência e escrúpulos surge com a informação que me chegou de que o candidato André Silva solicitou e teve recentemente uma reunião pessoal com a candidata Célia Feijão onde, com o pretexto de que eu teria um plano para acabar com ela (o que é totalmente falso), lhe propôs ou uma aliança contra uma minha eventual recandidatura ou que não hostilizasse a candidatura dele, pois queria concentrar-se no ataque à minha... Segundo consta a candidata terá recusado. Não sei se isto é verdade, tal qual, mas já nada me admira e, perante tudo o que tenho visto, parece-me até provável. Claro que tudo isto é legítimo e próprio do que habitualmente chamamos “política” em termos depreciativos, mas não era isto que intencionava e estava à espera quando ajudei a criar o PAN. Isto no fundo não é política, mas sim politiquice maquiavélica igual à ou pior do que aquela que tanto condenamos nos partidos do sistema.

É por tudo isto que não me recandidato e pondero, junto com muitos outros, se manterei ou não a filiação no PAN (as desfiliações aliás já começaram). Estou convicto que, se me recandidatasse, teria o apoio da maioria silenciosa dos filiados, mas sinceramente acho que o PAN, com as pessoas que se estão a chegar à frente e com a passividade da maioria dos filiados, não oferece condições para um trabalho minimamente saudável em prol das suas causas. A minha anterior confiança no André Silva e em muitas pessoas do grupo agora chamado “inteligência colectiva” quebrou-se totalmente, apesar de considerar que alguns estão lá bem intencionados. Olhando para as candidaturas, vejo aliás em ambas um regresso ao passado. A candidatura da Célia representa a facção mais animalista do PAN, que é legítima, mas que a meu ver é muito redutora do que o PAN pode ser e não é a melhor forma de defender a causa animal. Apesar de tudo, e das reservas que tenho em relação à candidata por questões passadas, reconheço nela uma autenticidade que me parece faltar completamente no André Silva e na sua candidatura, que pelos motivos indicados me parece transpirar hipocrisia por todos os poros. Não só pela forma como tudo isto começou, mas também pelo seu plano de acção, que é muito semelhante ao da Célia e se cola muito ao animalismo quando o André e a maioria do seu grupo não são propriamente animalistas. O plano de acção da candidatura do André Silva deixa significativamente de fora muitas das propostas mais inovadoras do PAN, no âmbito social, económico e ambiental.

Tentei fazer do PAN um projecto diferente e único em Portugal e no mundo, um projecto que trouxesse para a política nacional tudo o que houvesse de mais inovador e evolutivo no mundo e que aliasse a acção externa com a acção interna de mudança profunda das consciências, sem a qual nenhuma mudança externa é possível ou duradoura. Chamo a isso a Política da Consciência. É sintomático que isto tenha sido rejeitado pelo grupo da “inteligência colectiva”, que pelos vistos se sente incomodado com voltar a atenção para dentro e ver quais as verdadeiras intenções que os movem. É sintomático que, num partido que diz pretender mudar o paradigma da política e da civilização, surjam pessoas com uma concepção tão estreita, convencional e conservadora da política, que a reduz à busca de reformas pontuais, eventualmente mediante alianças com os partidos do poder, e que têm de um partido uma visão empresarial, em que o que conta são resultados imediatos e meramente quantitativos, sem sensibilidade para mudanças culturais e mentais mais profundas (apesar de o PAN também estar a ter resultados eleitorais mais do que interessantes e muito rápidos, de fazer inveja a qualquer pequeno partido em qualquer parte do mundo). Como disse na minha declaração de 13 de Setembro, o PAN está a ser colonizado por burocratas, especialistas em estatutos, regulamentos e formalidades à medida dos seus interesses flutuantes, mas completamente desprovidos de Alma. Foi todavia a Alma que nos trouxe os resultados de 2011 e sem ela não vamos a lado algum. Infelizmente, se no último Congresso defendi um partido com uma perna e um braço no sistema, mas com a outra perna, o outro braço e sobretudo a cabeça e o coração de fora, vejo hoje um PAN que, mesmo antes de eleger deputados, já se inclina para estar todo dentro do sistema.

A minha paciência esgotou-se e não quero ser cúmplice de um partido igual aos outros. Porventura sou eu e outros que estamos errados e fomos ingénuos, pois a essência da política partidária talvez seja precisamente esta mediocridade e falta de ética. Como também disse em 13 de Setembro, a lógica partidária é perversa e puxa pelo lado pior das pessoas, o que aplico primeiro que tudo a mim mesmo, pois sinto-me hoje bem pior do que antes de entrar nesta aventura.

Retiro-me assim do PAN para ter tempo, energia e discernimento para lutar pelas causas do PAN, como já o fazia antes do PAN, mas fora de qualquer partido e bem longe da política convencional. Retiro-me do PAN para fazer o que já fazia antes do PAN e sempre farei: intervir social e civicamente em prol de uma sociedade mais desperta, fraterna e solidária com todos os seres, humanos e animais, e com a Terra. Retiro-me do PAN para intervir publicamente, mas a partir da espiritualidade e da cultura, as duas maiores forças de transformação das consciências, das quais dependem reais e genuínas mudanças em todos os outros níveis: sociais, jurídicos, económicos e políticos. Vejo mais claramente hoje que, para a grande mudança que importa, os partidos políticos não só não são necessários como constituem um obstáculo. Defendi que o PAN fosse um “partido inteiro”, mas vejo hoje que é cada vez mais um partido todo partido por aqueles mesmos que hipocritamente dizem querer uni-lo.

Não estarei inactivo, contrariamente àquilo de que me acusam os que dizem que só medito. A esses, desafio-os a terem a coragem da poderosa acção interior que é meditar e a mostrarem uma vida tão cheia de coisas feitas, incluindo (com outros que comigo também saem) deixar-lhes um partido para poderem galgar os degraus do poder ilusório a que cegamente aspiram. É precisamente na meditação que encontro a força e a energia que me move e o desapego com que deixo para trás tudo o que já não faz sentido.

Tenho um sentido de missão e vários projectos para o Portugal e o mundo mais despertos que sempre defendi. Em breve os tornarei públicos, alguns dos quais no âmbito do Círculo do Entre-Ser, associação filosófica e ética de que sou um dos fundadores e à qual neste momento presido, que visa promover em Portugal e no mundo uma cultura da interdependência de todos os seres e da compaixão activa, baseada numa espiritualidade laica e na atenção plena a si e aos outros. Procuro por exemplo um espaço e apoios para uma escola diferente, uma escola de transformação das consciências. Que aqueles que em mim confiaram e confiam saibam que não desisto. Se o PAN não tem condições para ser factor da mudança urgente, se o PAN perde o comboio da inovação e da criatividade, se o PAN se demite do futuro já presente, há muita e toda a Vida para além do PAN.

Saudações fraternas

Paulo Borges

21.10.2014


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Somos cada vez mais amputados emocionais e sensoriais

Cada vez mais pensamos, vemos e ouvimos. Cada vez menos sentimos, tocamos, cheiramos e saboreamos. Dizemos: já pensaste, já viste, já ouviste?, mas raramente: já sentiste, já tocaste, já cheiraste, já saboreaste? Somos cada vez mais amputados emocionais e sensoriais:

“Se repararmos, os meios que lideram a comunicação humana contemporânea (da televisão ao telefone, do e-mail às redes sociais) interagem apenas com aqueles dos nossos sentidos que captam sinais à distância: fundamentalmente a visão e a audição. Origina-se assim uma descontrolada hipertrofia dos olhos e ouvidos, sobre os quais passa a recair toda a responsabilidade pela participação no real. “Viste aquilo?”, “já ouviste a última do...”: os nossos quotidianos são continuamente bombardeados pela pressão do ver e do ouvir”

- José Tolentino Mendonça, A Mística do Instante. O tempo e a promessa, Prior Velho, Paulinas Editora, 2014, p.22.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Somos demasiado limitados. A urgência de uma espiritualidade laica e de uma política da atenção plena

“O mundo que nos rodeia é completamente sonoro e, dessa paisagem de imensidão, o ouvido humano capta apenas uma parte. Tomando como referência a audição humana, chamamos infrassons aos sons de frequência inferior a 20 hertz (a frequência mais grave que captamos). Apesar do homem não conseguir ouvi-los, um elefante colhe-os facilmente e sem ter de encostar a orelha à terra, pois as suas patas captam igualmente ondas sonoras. Designamos também ultrassons aos sons para nós inaudíveis por terem frequência acima de 20 000 hertz (a frequência mais aguda a que chegamos). Contudo, um cão ou um gato ouvem o dobro desse limite, a nosso lado”

- José Tolentino Mendonça, A Mística do Instante. O tempo e a promessa, Prior Velho, Paulinas Editora, 2014, p.30.

Somos demasiado limitados, em termos sensoriais e mentais. Só captamos da realidade o pouco que podemos, porque é o pouco que nos interessa para satisfazer o nosso egocentrismo utilitário e o nosso grosseiro instinto de manipulação e sobrevivência. É essa a raiz profunda de todos os nossos problemas, mentais, sociais e ambientais. É por isso que a macropolítica convencional nada muda. É por isso que é urgente uma micropolítica da consciência, uma política da abertura e expansão da consciência e do coração, uma política da atenção plena. É por isso que é urgente uma espiritualidade laica, sem crenças, dogmas ou doutrinas. Uma espiritualidade pura e radicalmente empírica, nascida da íntima reconexão com tudo o que nos rodeia, com a imensidão sensível e invisível de cada instante.

sábado, 4 de outubro de 2014

Dia Mundial do Animal ou Dia Mundial do Escravo e da Vítima Silenciosa?

Celebra-se hoje o Dia Mundial do Animal. Se não fôssemos profundamente hipócritas devíamos chamar-lhe Dia Mundial do Escravo e da Vítima Silenciosa. Mas não, gostamos de imaginar que abolimos a escravatura, que somos todos muito evoluídos e que não são seres vivos com sensações e emoções semelhantes às nossas que escravizamos para comer os seus corpos, vestir as suas peles, explorar o seu trabalho, divertirmo-nos com o seu sofrimento em zoos, circos e arenas e promover o nosso bem-estar com a sua tortura nos laboratórios ditos científicos. E o cúmulo da hipocrisia é acharmos que vivemos em sociedades democráticas, quando uma minoria de animais humanos exerce a mais cruel das ditaduras sobre a esmagadora maioria dos animais não-humanos. Isto mostra a tirania como a essência de toda a política antropocêntrica, de direita, de centro ou de esquerda.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Sentar e Ser

É significativo que “ser”, em português e castelhano, venha do latim “sedere”, que significa estar sentado, residir, ficar tranquilo, pousar, etc. Não é exagerado dizer que boa parte do estado actual das mentes e do planeta resulta de não passarmos mais tempo verdadeiramente sentados, ou seja, serenamente ligados à Terra, integrados no mundo, repousados. A incontinência e a paranóia do agir e do fazer coisas a todo o custo devastam a vida e o mundo. Sentemo-nos e Sejamos pois. Não deprimidos com a coluna dobrada e a cabeça na mão, como o Anjo da Melancolia de Durer ou O Pensador de Rodin, mas com a coluna bem direita, eixo sagrado da ligação Céu-Terra. A partir daí podemos levantar-nos e estar de pé, do latino "stare", de onde vem "estar", mas que também significa estar a favor de ou contra alguém. Mas, se nos sentarmos verdadeiramente, podemos levantar-nos mantendo-nos interiormente sentados, em repouso, sem dualidade e parcialidade, para fazer apenas o que for indispensável para o bem de todos. E voltar o mais rápido possível a sentar-nos, exterior e interiormente. Sentemo-nos e Sejamos, Irmãs e Irmãos!

Uma vida feliz

Tudo está ligado. Uma vida feliz não é possível sem uma compreensão justa da realidade e ambas não se realizam sem uma mente calma e uma conduta virtuosa na relação com todos os seres, nossos próximos. A reflexão/meditação e a ética são inseparáveis e indispensáveis no caminho para as igualmente indissociáveis sabedoria, paz e felicidade. Precisamente o contrário das expectativas dominantes – fortemente alimentadas pela indústria da publicidade - que consideram ser possível comprar a felicidade adquirindo produtos, bens e serviços sem criar as condições mentais e éticas de uma vida plena, sem ver a natureza profunda e interdependente da realidade e agir em consonância. Precisamente o contrário também do que supõe a ciência, que considera o acesso à verdade uma experiência exclusivamente intelectual, alheia ao pleno desenvolvimento humano na paz interior e na conduta virtuosa em relação aos outros seres.

- esboço de parte do primeiro volume do meu próximo livro, a sair em Outubro/Novembro, com o titulo provisório: "O Coração da Vida. Guia de Meditação e Transformação Integral - I" (Lisboa, Mahatma, 2014).

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Religião e Espiritualidade

A ver se nos entendemos. Religião, não no sentido de experiência religiosa, mas no seu entendimento institucional, supõe um corpo de dogmas e doutrinas acerca da realidade última, bem como uma moral e rituais, modos canónicos de nos comportarmos perante essa realidade e na relação uns com os outros. A religião implica crer naquilo que não se vê e experimenta directamente e a integração numa hierarquia formal de representantes e administradores da verdade, do divino ou do sagrado, que estrutura uma comunidade religiosa específica.

Espiritualidade, por seu lado, é o exercício de abertura e expansão da consciência e do coração rumo à natureza profunda das coisas e por amor a todos os seres, para além de todo o dogma e doutrina e sem outra crença senão aquela que advém da experiência directa, aqui e agora. A espiritualidade convida a uma ética da espontaneidade e da autenticidade, não a uma moral rígida. A espiritualidade pode viver-se com ou sem o apoio de rituais, dentro ou fora de qualquer religião ou comunidade religiosa específica e dispensa qualquer hierarquia formal de representantes e administradores da verdade, do divino ou do sagrado, embora dê lugar à hierarquia natural e informal que resulta da diferença de níveis de abertura e expansão da consciência e do coração, ou seja, da visão do real e do amor por todos os seres. O que há de mais autêntico na religião é a espiritualidade, mas a espiritualidade não tem de ser religiosa. Pode ser laica, ateia ou agnóstica.

A espiritualidade é urgente.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Preguiça de pensar todo o pensável


"O homem tem preguiça, em geral, de pensar todo o pensável e contenta-se com fragmentos de ideias, recusa-se a uma coerência absoluta. Não leva até ao fim o esforço de entender. E, exactamente porque não o faz, toma, em relação à sua capacidade de inteligência, uma absurda posição de orgulho. Compara o pouco que entendeu com o menos que outros entenderam, jamais com o muito que os mais raros puderam perceber."

- Agostinho da Silva, As Aproximações.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Auto-importância e amor universal

Quando nos deixamos dominar pela auto-importância, na verdade carecemos de auto-estima, porque estimamos como mais importante a ficção de um eu separado dos outros e desprezamos o nosso ser profundo, inseparável de tudo e de todos. Se a auto-importância nos reduz a nada, o amor universal devolve-nos à cósmica majestade de quem realmente somos: tudo e todos.

sábado, 20 de setembro de 2014

Sentar em Paz no Dia Mundial da Paz, Rossio, Lisboa, 14.30-15.30

No dia 21 de Setembro, Dia Mundial da Paz, vamos sentar-nos em Paz e Silêncio, reflexivo ou meditativo, das 14.30 às 15.30, na Praça do Rossio, em Lisboa, em comunhão com iniciativas semelhantes em todo o mundo.

Estando em paz, há Paz. Sentindo que somos a Terra, a Terra está protegida. Sentindo que somos todos os seres, todos os seres estão protegidos. Sentindo que somos a Vida, a Vida está protegida.

Sentemo-nos em Paz e Silêncio, dissolvendo a ficção da separação entre nós, os outros e o mundo. Mudemos a civilização. Criemos um Mundo Novo, fundado numa Consciência Nova.

No mesmo local tem lugar, às 16h, a Marcha contra as alterações climáticas - Salvem o Planeta. Levantemo-nos e, sempre em paz, participemos também nesta iniciativa igualmente mundial.

Círculo do Entre-Ser (associação filosófica e ética)

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Mal pensa quem pensa mal de alguém

Pensar não é ter pensamentos. Pensar é cuidar, alimentar, curar, amar, como sugere o sentido antigo de “pensar” em português, presente nos cancioneiros medievais (“pensar no amigo”) e ainda hoje no interior de Portugal: “pensar uma criança”, “pensar os animais”. Daí vem “pensar uma ferida” e “fazer um penso” no sentido de um curativo. No mesmo sentido, em francês, até ao século XVI, “penser” (pensar) e “panser” (cuidar, curar) eram um mesmo verbo.

Também nas línguas anglo-germânicas pensar é mais do que ter pensamentos. Pensar é agradecer, como mostra a raiz comum do inglês “think” e “thank” e do alemão “denken” e “danken”. Pensar, como viu Heidegger, é “dar graças” pelo Ser.

Curiosamente, estes verbos derivam por sua vez da raiz indo-europeia –dhyai, de onde vem o sânscrito dhyāna (absorção meditativa ou contemplativa, sem sujeito nem objecto), o chinês ch’an e o japonês zen.

Sim, pensar não é ter pensamentos. Pensar é cuidar, amar e sarar a ferida aberta da separação fictícia entre nós e os outros, nós e o mundo, nós e o real. Mal pensa quem pensa mal de alguém.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A meditação laica como a mais profunda e eficaz forma de activismo ambiental, social e político

A raiz da crise da actual civilização é mental ou espiritual, pois consiste numa distorção da percepção da realidade, que nos faz crer que existimos separados dos demais seres vivos e do mundo. O resultado disso é a história da civilização, com todo o seu trágico cortejo de sofrimento, opressão e violência, contra os humanos, os animais e a natureza, que tem hoje o seu auge. Não basta pois combater os sintomas pelos meios convencionais. Precisamos de uma mutação radical do nosso ADN interior, de uma transformação profunda do modo como nos percepcionamos a nós mesmos, aos outros e ao mundo. Precisamos de um outro estado de consciência, não-dual, em que eu e outro sejam vistos como os dois aspectos de uma mesma realidade e não como entidades isoladas. Precisamos da experiência do mundo como um organismo vivo do qual todos os seres e fenómenos são manifestações inseparáveis.

E para isso, a partir da informação e da reflexão, só conheço uma via rápida e directa: a meditação laica. Sem dogmas religiosos, especulações intelectuais ou exortações morais, é ela que leva à experiência directa da não-separação eu-outro e ao amor-compaixão universais por tudo quanto existe, vive e sente. Por isso a vejo como o centro de uma nova ético-espiritualidade laica, transversal a crentes e descrentes, que está a emergir em todo o mundo.

Por isso vejo também a meditação – sentada e em movimento, na sua inseparável vertente contemplativa e activa - como a forma mais profunda e eficaz de serviço e activismo ambiental, social e político, pois estarmos e vivermos em paz, felizes com o ser e não com o ter, pensando, falando e agindo sempre pelo bem de tudo e de todos, é o caminho certo para uma sociedade solidária, de abundância frugal, livre do mito do crescimento económico ilimitado, onde o bem de todos - humanos, animais e natureza – se considere como o nosso próprio bem. E para isso basta começar por sentar e entrar na paz da respiração. Isso já é agir e a fonte de toda a acção esclarecida, sem a complicação de mil actividades e projectos e sem depender de governos, eleições e lutas partidárias. Sem depender de tudo aquilo que vem precisamente da dualidade, da confusão e da violência e sempre as reproduz.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ver "o coração da realidade"

“[…] neste cenário de todos os dias, e de um modo inteiramente inesperado (pois jamais havia sonhado com tal coisa), os meus olhos foram abertos e, pela primeira vez em toda a minha vida, tive um vislumbre da beleza extática da realidade…
[…] Não vi nenhuma coisa nova, mas vi todas as coisas habituais numa miraculosa luz nova – no que acredito ser a sua verdadeira luz. Vi pela primeira vez quão selvaticamente bela e jubilosa, para além de quaisquer palavras minhas para o descrever, é a totalidade da vida. Cada ser humano atravessando aquela varanda, cada pardal que voava, cada ramo oscilando ao vento, estava integrado e era parte do inteiro e louco êxtase de encanto, alegria, significância e embriaguez da vida.
Não que por uns poucos e excitados momentos eu imaginasse toda a existência como bela, mas, antes, a minha visão interna foi desobstruída para a verdade, de modo que vi o real encanto que está sempre aí, mas que tão raramente percepcionamos, e soube que todo o homem, mulher, ave ou árvore, toda a coisa viva diante de mim, era extravagantemente bela e extravagantemente importante. E, ao contemplar, o meu coração fundiu-se e abandonou-me num arrebatamento de amor e deleite. […]
Uma vez, no meio de todos os cinzentos dias da minha vida, vi o coração da realidade; testemunhei a verdade; vi a vida como ela realmente é – arrebatadora, extática, loucamente bela e cheia até transbordar com uma alegria selvagem e um valor indizível. Durante esses momentos glorificados estava apaixonada por cada coisa viva diante de mim – as árvores no vento, as pequenas aves a voar, as enfermeiras, os internados, as pessoas que iam e vinham. Não havia nada que estivesse vivo que não fosse um milagre. A minha própria alma fluiu para fora de mim numa grande alegria” [1].



[1] Cf. Margaret Prescott MONTAGUE, Twenty Minutes of Reality. An experience with some illuminating letters concerning it, New York, E. P. Dutton & Company, s. d., pp.7-11. Sobre esta experiência, cf. W. T. STACE, Mysticism and Philosophy, Londres, The MacMillan Press, 1972, pp.83-84; Michel HULIN, La Mystique Sauvage. Aux antipodes de l’esprit, Paris, PUF, 1993, p.37.